Algumas notas sobre a seleção do CEN 2011

Enquanto a lista dos curtas, médias e longas selecionados não é divulgada, os premiados dos anos anteriores estão sendo recordados com links na página do festival no Facebook

Um dos momentos de maior prazer para os organizadores do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre é a seleção dos filmes que irão compor as mostras competitivas. A cada edição, o trabalho de curadoria dos cincos sócios do CEN se aprofunda e evolui em sintonia com seus princípios: valorizar a criatividade, inovação, surpresa e experimentação na linguagem audiovisual.

Porém, as distâncias geográficas e cotidianas aumentaram, o que torna o processo ainda mais desafiador: se na primeira edição em 2003 os parceiros na condução do festival estavam todos no sul do Brasil, hoje eles se espalham vivendo entre a capital gaúcha, São Paulo, Belo Horizonte e Lisboa.

Antes da preocupação em fechar uma grade de exibição para a programação do festival, vem a preocupação com o recorte das obras que serão exibidas. A expectativa maior reside, então, no desejo da novidade, que diz respeito tanto à produção mais atual de realizadores que têm uma trajetória no CineEsquemaNovo quanto à turma mais nova – os novos coletivos de produção e cineastas que aparecem como gratas surpresas a cada CEN.

Depois de seis edições já realizadas, o que representa uma ativa participação do festival na consolidação da produção audiovisual independente brasileira, o CEN assiste ao amadurecimento de realizadores e de um tipo de produção que, em outro momento, foi considerada “menor”, mas que vem sendo reconhecida, valorizada e premiada dentro e fora do País. Muitas vezes, são estes trabalhos que mais e melhor representam a produção audiovisual brasileira, em detrimento dos “grandes filmes” que não encontram eco junto às audiências internacionais.

Se no primeiro ano do CineEsquemaNovo um dos objetivos era criar uma janela para exibição de filmes criativos que não tinham espaço em outros festivais, sobretudo em curtas e médias-metragens, atualmente a seleção se baseia muito mais no grau de identificação de cada obra com a proposta essencial do CEN. Assim, vários filmes artisticamente compatíveis com edições passadas do festival hoje já não se identificam tanto com seus princípios, por motivos diversos que vão desde o aumento do nível geral dos inscritos – sobretudo entre os longas-metragens – até a repetição de propostas estéticas que há alguns anos eram novidade – mas que, agora, já soam um tanto repetidas.

Se é possível apontar uma característica geral da seleção do CEN em 2011, enquanto a lista oficial não é divulgada, esta seria a de um certo “peso” presente em grande parte dos filmes. Tanto no tratamento visual quanto nos temas ou personagens, são obras que exigem um tipo diferenciado de fruição, e demandam que o espectador dê algo em troca. São filmes pesados pelos seus silêncios, pelas demoras, pelos longos planos e os poucos cortes, que atribuem às obras um teor fortemente contemplativo: exigem mais ao mesmo tempo em que abrem mais possibilidades de apreciação.

Talvez ainda não seja possível falar de uma fase do cinema independente brasileiro marcada por um tom melancólico ou de ressaca que pode ser reflexo da própria insatisfação dos cineastas com o cinema no Brasil, uma vez que na maior parte das vezes – quiçá mesmo em sua totalidade – as obras selecionadas para o CEN refletem o modo dos realizadores de estar no mundo e alguns filmes deste ano apresentam uma tentativa de “tapa na cara”. Talvez seja apenas um sintoma do “amadurecimento” destes realizadores, no melhor sentido possível.

Após quatro dias seguidos de trabalho coletivo para a assistência final em São Paulo (antecedidos por semanas de trabalho individual compartilhado online), acompanhados de muita discussão, a sensação é de dever cumprido. Os sócios e responsáveis pelo júri de seleção CEN 2011 (Alisson Avila, Gustavo Spolidoro, Jaqueline Beltrame, Morgana Rissinger e Ramiro Azevedo) estão ansiosos para compartilhar os filmes que comporão as mostras competitivas de longas e curtas-metragens, cuja escolha demandou muito trabalho, mas ao mesmo tempo atingiu (ou superou?) as expectativas de todos.

Os 12 longas e 27 curtas selecionados serão divulgados no próximo dia 22 de março. Enquanto isso, vários dos curtas, médias e longas premiados em edições anteriores do CineEsquemaNovo estão sendo postados na página do CEN no Facebook.

 

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