Artistas do CEN-E #1: Sérgio Borges

O Cine Esquema Novo Expandido dá início à publicação de uma série de textos no blog sobre os artistas convidados para a sua edição de 2013: Sérgio Borges (MG), Guto Parente (CE), Distruktur / Gustavo Jahn e Melissa Dullius (RS), Ricardo Alves Jr. (MG), Carlosmagno Rodrigues (MG) e o inglês William Raban. Até o festival, que começa no dia 19 de junho, conteúdos exclusivos sobre os artistas e suas obras que foram selecionadas para o CEN-E serão publicados aqui, com o objetivo não só de fornecer informações sobre estes nomes, mas também de situar a produção destes artistas em meio às questões que o CEN-E pretende levantar, enquanto espaço voltado à exibição e exposição de obras audiovisuais e também de discussão sobre a imagem no contexto dos circuitos artísticos e midiáticos contemporâneos.

Iniciamos a série com Sérgio Borges, cineasta mineiro premiado no CEN em 2003, com “Através”, e em 2009, com “Perto de Casa”, filmes que o público de Porto Alegre terá nova oportunidade de assistir no CEN-E. Em 2011, participou do festival com seu primeiro longa-metragem, “O Céu Sobre os Ombros”, que teve no CEN a sua primeira exibição na capital gaúcha, e agora retorna à cidade também como parte da programação do festival deste ano.

Embora não se autodefina como documentarista, Sérgio Borges faz questão de deixar claro que o seu cinema é calcado na tradição documental: “o real é matéria-prima”, diz o diretor em entrevista exclusiva à equipe do CEN, “mas a criação narrativa, dramatúrgica e de composição interfere na realidade”, afirma.

Sérgio explica que o seu processo de criação sempre esteve voltado à busca por um material extraído do real – inclusive porque, na sua própria vida, realidade e invenção sempre se retroalimentaram: “como cineasta, fui buscar caminhos de realização em que a crença do espectador naquilo que ele está vendo se tornasse mais potente. Neste sentido, acho que as experiências com personagens reais envolvidos é um caminho possível para encontrar potência no cinema, embora não seja o único.”

Não se trata, no entanto, da tentativa de construção de uma narrativa de acento realista como costuma fazer a ficção mais convencional, ou ainda do documentário observacional “puro” (como um olhar apressado a alguns dos seus filmes pode fazer supor, a exemplo de “Perto de Casa” e “O Céu Sobre os Ombros”), mas de um complexo arranjo em que o dispositivo de criação proposto pelo cineasta é condição de possibilidade para a realização das obras.

Perto de Casa

Não há um “real” que exista previamente ao filme, mas sim uma circunstância, criada pelo cineasta, da qual os personagens parecem ter bastante consciência – mesmo as crianças de “Perto de Casa”. No caso de “O Céu Sobre os Ombros”, a escolha de personagens com histórias individuais peculiares foi proposital: “eu queria fazer uma experiência com pessoas que existiam de fato, mas que talvez tivessem histórias singulares ou algumas coisas em suas histórias que pudessem parecer criação de um diretor ou de um roteirista”, diz o diretor.

As histórias são possíveis, embora improváveis, e provocar estranhamento no espectador parece ter sido um dos objetivos do cineasta. “Quando tenho um Hare Krishna que é líder de torcida organizada, ou uma transsexual que trabalha como prostituta de rua mas faz mestrado, são personagens possíveis ou verossímeis, mas para a sociedade pode parecer não fazer muito sentido dentro de uma convenção do que é o ‘normal’”, afirma Sérgio. Num percurso que sai do estereótipo e tenta chegar no comum, o cineasta pretendeu que o filme revelasse aos poucos “o quanto elas são parecidas com todas as outras pessoas nos seus desejos de serem amadas e reconhecidas no seu cotidiano.”

Engana-se quem pensa que a relação do cineasta com os personagens de “O Céu Sobre os Ombros”, que parece tão próxima, foi construída ao longo de muito tempo. Sérgio explica que filmou cada um dos três durante uma semana apenas: “muito dessa ideia de intimidade é um artificio do cinema mesmo, misturado com a naturalidade com que a Evelyn me deixava filmar uma cena dela procurando programa na rua, ou Lwei me deixava filmar ele pelado cozinhando, por exemplo. Busquei personagens para os quais de algum modo um certo sentido de intimidade fosse algo natural.”

O Céu Sobre os Ombros – Evelyn

Na origem da produção artística de Sérgio Borges, além do interesse pelo real como matéria-prima está a relação com diversas outras artes além do cinema. Suas primeiras incursões como artista se deram com a poesia e a fotografia, incluindo a realização de instalações. A trajetória como cineasta remonta a formas de exibição de obras que não estão na sala de cinema, mas que já lidavam com a imagem, a narrativa e o tempo. “Depois que comecei a fazer filmes, minha experiência passou a ser muito invadida pela ideia de outras artes se misturando ao trabalho, até que de alguma maneira comecei a acreditar mais na imagem e no tempo, na duração de tempo de um acontecimento, na imagem das coisas acontecendo”, explica.

Produzir uma obra de videoinstalação para o Cine Esquema Novo Expandido vai ser uma novidade na trajetória do artista: “o que o CEN está me propondo é algo novo para mim, que já tenho vontade de fazer há algum tempo. A criação artística tem infinitas formas de ser mostrada ao público e acho muito interessante que o festival esteja apostando neste tipo de experiência”.

Confira o video de introdução da participação de Sérgio Borges no CEN-E:

http://www.youtube.com/watch?v=ayjnF0WFCg8

Por Gabriela Ramos de Almeida e Jamer G. Mello.

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