Artistas do CEN-E #2: Guto Parente

Dando continuidade à série de textos sobre os artistas convidados para o Cine Esquema Novo Expandido, agora é a vez de Guto Parente: cineasta, roteirista e produtor cearense, integrante do coletivo de produção audiovisual Alumbramento. Parente assina a direção de quatro longas e sete curtas-metragens, em uma produção constante e premiada, realizada sempre por meio de parcerias entre os demais integrantes do coletivo e também com outros realizadores e produtores pelo país. Seus trabalhos serão exibidos no Cine Santander Cultural em sessões no dia 21 de junho, às 15h e 17h (Programas #1 e #2) e no dia 27, às 15h, 17h e 19h (Programas #1, #2 e #3). Os espectadores da sessão das 19h terão a oportunidade de assistir a um seminário, proferido pelo autor, a partir das 20h30.

guto parenteGuto Parente foi premiado em duas edições do Cine Esquema Novo: em 2008, com “Espuma e Osso”, codirigido em parceria com Ticiano Monteiro (Melhor curta) e em 2009, com “Flash Happy Society” (Melhor argumento experimental) e “Passos no Silêncio” (Melhor direção). Também participou da Mostra competitiva de longas-metragens na última edição do CEN, em 2011, com “Os Monstros”, filme que teve a direção compartilhada entre Guto e outros três realizadores, Ricardo Pretti, Luiz Pretti e Pedro Diógenes.

É neste contexto de produção coletiva que se insere e se desenvolve a sua obra: Parente costuma trabalhar com amigos não apenas em projetos seus, como também nos de outros realizadores. Um exemplo é o filme “As Corujas” (exibido no CEN 2011), produzido pelo coletivo Alumbramento e dirigido por Fred Benevides. O curta foi montado por Fred e Guto e volta ao CEN, agora na retrospectiva de seu trabalho programada para esta edição especial de junho.

O diretor comenta que um traço evidente do seu trabalho é a importância do afeto – tanto no processo de criação e produção dos filmes, feitos entre amigos (no melhor sentido da expressão), quanto no tratamento dos temas e personagens. Em entrevista à equipe do Cine Esquema Novo, o cineasta comenta que em seus dois primeiros longas, “Estrada para Ythaca” e “Os Monstros”, a coletividade e a amizade acabam se misturando em uma via de mão dupla: “os filmes foram realizados por mim, Luiz, Pedrinho e Ricardo, que somos diretores amigos, assim como personagens amigos”, explica. De fato, os filmes não são apenas produzidos de forma coletiva, como também assumem o afeto dessas amizades como propulsor da coletividade.

Os Monstros 3 - Frame Divulgação

Os Monstros

“No meu terceiro longa, o ‘No Lugar Errado’, que é também um filme irmãos Pretti & primos Parente, o afeto continua presente mas é deslocado de lugar. A amizade ainda é tematizada, mas nós saímos de cena e olhamos para um outro bem diferente do que somos – ou acreditamos ser”, afirma Guto.

A ideia de realizar “No Lugar Errado” surgiu a partir de um encontro dos realizadores com quatro artistas de teatro, integrantes do Grupo Experimental Desvio, e resultou de um processo de criação coletiva e aprendizados intensos. Guto explica que “quando vimos a peça (que deu origem ao filme), ‘Eutro’, dirigida pelo amigo Fischer, ficamos impressionados como aquela perspectiva de amizade era distante do que cada um de nós acredita ser amizade. Assim, o desafio de transformá-la em filme foi por isso ainda maior. Mesmo depois de pronto, demoramos para entender o filme e o quanto ele é especial na nossa trajetória”.

O quarto e mais recente longa-metragem de Guto Parente, “Doce Amianto” (codireção de Uirá dos Reis), será exibido pela primeira vez em Porto Alegre durante o CEN-E. Segundo o cineasta, o processo coletivo é tão intenso quanto nos filmes anteriores, porém aqui o afeto não é tematizado da mesma forma, pois a amizade não se coloca também como temática.

Há, em “Doce Amianto”, um processo de realização extremamente prazeroso, que foi fundamental para a realização do longa. O cineasta vê a obra “como um filme que fala muito sobre a vontade de prazer, de realizar desejos, a busca por algo que nos torne plenos ou, no caso da personagem Amianto, viver um grande amor”.

Os processos de realização de filmes pelo Alumbramento já deixaram como legado na cidade de Fortaleza uma mudança de mentalidade e a valorização da produção colaborativa. Guto comenta que a produção na cidade está mais intensa do que nunca: “existe um processo em andamento e com certeza os filmes coletivos que o Alumbramento fez continuam reverberando e influenciando algumas novas produções”.

O cineasta refere-se a uma série de produções que vêm sendo realizadas, como um longa em episódios chamado “Tesão”, que será rodado em breve por seis diretores, em sua maioria vindos do curso de cinema da UFC; outros dois longas a serem finalizados pelo Alumbramento até o final do ano (“ambos realizados na guerrilha, com uma equipe enorme de velhos amigos e novos amigos”), e a retomada de alguns cineclubes e outros projetos / espaços de difusão do audiovisual na capital cearense. “Fortaleza é uma cidade-areia-movediça que costuma ou engolir vivos os seus artistas ou expulsá-los. Hoje a sensação é de que tem muito mais gente ficando e insistindo do que saindo”, afirma.

flashPara o Cine Esquema Novo Expandido, Guto Parente também está preparando uma projeção para ser exposta na galeria Ecarta. Ao mesmo tempo em que afirma ser “fundamental pensar o ambiente de circulação da obra quando ela está sendo pensada e concebida”, Guto diz ainda que fará no CEN-E a experiência de exibir em galeria “Flash Happy Society”, um filme que foi pensado para o cinema, mas que ele sempre desejou ver exibido em outro contexto. “Tenho bastante interesse em explorar outros lugares, só que ainda estou na fase de flerte, bem timidamente até, e essa experiência no CEN-E certamente será inspiradora”, revela.

Atualmente o cineasta finaliza um mestrado na França, onde está filmando um longa de suspense, terror e mistério. “Tenho cada vez mais me interessado pelo cinema de gênero, especialmente o terror e especialmente o terror italiano”, afirma, se dizendo apreciador de filmes de horror. “Sempre gostei de terror, em geral o cinema de terror americano de 70 e 80, mas de uns tempos para cá venho me dedicando às obras dos mestres italianos (Bava, Argento e Fulci) e um mundo novo se abriu para mim. É um cinema que me instiga muito! Esse filme que eu tô fazendo não é bem um filme de terror, mas é muito motivado e inspirado por esses caras. O título até agora é “Pérola e o estranho caminho para chegar até a ti”.

Confira o vídeo de introdução da participação de Guto Parente no CEN-E:

 

Por Gabriela Ramos de Almeida e Jamer G. Mello.

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