Artistas do CEN-E #3: Ricardo Alves Jr.

O mineiro Ricardo Alves Jr. é tema do terceiro post da série sobre os artistas brasileiros convidados do Cine Esquema Novo Expandido. Ricardo é graduado em cinema pela Universidad del Cine (Buenos Aires) e tem em sua trajetória a direção de quatro filmes de personalidade intensa e marcante, além da participação em diversos outros projetos no cinema e no teatro, exercendo diferentes funções.

Alves Jr. participou da Mostra competitiva do CEN em 2011, com o média-metragem “Permanências” (selecionado também para a Semana da Crítica do Festival de Cannes, no mesmo ano), e recebeu prêmio especial do júri no CEN 2007, com o curta “Material Bruto”. O curta “Convite para Jantar com o Camarada Stalin” também foi selecionado para o CEN em 2008. Seus trabalhos foram exibidos ainda em mostras e exposições em museus internacionais, como o Centre Pompidou (Paris) e o Reina Sofia (Madri). No CEN-E, as obras de Ricardo Alves Jr. serão exibidas no Cine Santander Cultural em sessões no dia 21 de junho, às 19h e no dia 25, às 17h. Os espectadores da sessão do dia 21 terão a oportunidade de assistir a um seminário, proferido pelo autor, a partir das 20h30. Sua videoinstalação especialmente preparada para o festival, ao lado dos demais artistas brasileiros convidados, estará aberta ao público a partir do dia 25 de junho na Galeria Ecarta.

12. Ricardo Alves Júnior
Seus filmes evocam uma estratégia fílmica em comum, que privilegia a encenação como experiência investigativa. Os procedimentos de criação de Ricardo são atravessados de forma bastante concreta pelo teatro e pela performance.

Em seu primeiro curta, “Material Bruto” (2006), realizado em conjunto com o grupo Sapos e Afogados (núcleo de criação que trabalha com arte e saúde mental em Minas Gerais), é nítida a preocupação com o campo de ação dos atores no espaço filmado. O cineasta comenta: “o que me interessa, nesse processo, é o tempo de duração das ações e dos gestos, ou melhor, me interessa compor uma coreografia dos atores”. Essa estratégia se torna recorrente em seus demais filmes de diferentes maneiras, o que acaba tomando a forma de um modo bastante peculiar de trabalho com o cinema e com a dramaturgia.

Alves Jr. procura explorar em sua obra a duração dos planos, implicando e afetando o espectador por meio do alargamento do tempo. Segundo ele, “o espectador é, de alguma maneira, colocado em outro estado de diálogo com a poética do filme, seja a saúde mental no caso de ‘Material Bruto’, seja no fim das utopias como em ‘Convite para Jantar com Camarada Stalin’ (2007), ou na relação dos corpos num conjunto habitacional como em ‘Permanências’ (2010)”. O diretor acaba dando uma importância significativa ao que chama de plano alargado, em respeito à composição de uma coreografia das ações e dos gestos dos atores, que se dão no tempo e no espaço.

Permanências 1 - Frame Divulgação

Permanências

Assim, o processo criativo dos filmes passa pela potencialização cinematográfica das performances. Isso pode ser explicado pela forte influência do teatro na trajetória profissional do artista. Apesar de sua ligação direta com o cinema, foi com a dramaturgia que ele iniciou seu trabalho: “sempre fui muito ligado aos filmes, mas por incrível que pareça a minha incursão prática, como trabalho, se iniciou por meio do teatro, de um teatro performático, e com a dança, numa relação muito maior do corpo com o espaço e com o tempo”, explica Ricardo.

O diretor desenvolve seu pensamento ao dizer que “uma forte relação entre o cinema e o teatro, por exemplo, seria a presença. No caso específico da performance, o ator não está exatamente representando algo: ele está vivendo uma situação e colocando suas questões dentro da cena, enquanto performer”, ainda que as situações sejam ficcionais e pré-definidas.

O filme mais recente de Ricardo Alves Jr., “Tremor”, terá sua estreia dentro do CEN-E. O cineasta afirma que segue buscando esse caminho do ator como performer: “neste novo trabalho tento criar uma dramaturgia muito mais concatenada com a narrativa do que nos filmes anteriores, onde considero a dramaturgia muito mais rarefeita. Em ‘Tremor’ eu me preocupo mais em criar uma atmosfera que não seja cotidiana para ações que são de certa forma cotidianas”.

Tremor

Tremor

Segundo o artista, há uma “busca por uma fissura entre o documental – que é a essência do cinema, de registro de uma situação frente à câmera – e o ficcional – a criação desta situação. E essa fissura é o que possibilita um outro estado de presença dos corpos colocados em cena e que vivem aquela situação, sempre dentro de uma linha poética criada especificamente para cada filme”.

Para o Cine Esquema Novo Expandido, Ricardo Alves Jr. está preparando ainda uma videoinstalação inédita – sua primeira experiência “criando uma instalação, um filme para ser exibido fora da sala de cinema”. Questionado sobre o ambiente de circulação de suas obras e a interferência de novos gêneros e formatos de exibição em seu processo criativo, o cineasta afirma que “antes de pensar o dispositivo eu gosto de pensar a poética, pois é a partir da poética e das imagens que começo a pensar em que dispositivo a obra pode ser vista”.

O artista revela ainda que, ao ser convidado a criar uma obra para ser exibida num espaço de instalação, começou a pensar no que poderia exibir fora da sala de cinema, e como se daria o processo. “Se na sala de cinema temos uma única tela e as imagens encadeadas de forma linear na montagem, eu vi com esse convite do CEN-E a possibilidade de exibir uma composição de planos simultâneos, uma outra configuração de montagem, em mais de uma tela”, diz.

Ricardo Alves Jr. aproveitou a entrevista exclusiva que deu ao Cine Esquema Novo para deixar uma questão no ar: “será que essa preocupação com as diferentes possibilidades de espaços de exibição do cinema fala mais sobre os curadores e o mercado da arte do que dos artistas?”

Confira o vídeo de introdução da participação de Ricardo Alves Jr. no CEN-E:

Por Gabriela Ramos de Almeida e Jamer G. Mello

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