Brasília e o CEN: da primeira à quarta via

Não é de agora que o Festival de Brasília aposta em sua própria personalidade em termos de seleção de filmes. Estamos falando de um encontro com muita história e que dispensa apresentações. Mas os últimos anos, talvez por conta da divisão macro que temos acompanhado entre os “filmes espertos de baixo orçamento” e os “filmes de mercado que são o grande cinema brasileiro”, acabaram deixando mais fácil para os organizadores do planalto central o aprofundamento de uma “terceira via”, que mistura as duas primeiras para chegar a uma personalidade própria enquanto festival. No final, isso é bom para todos, pois ainda se espera que um filme premiado em Brasília aumente suas chances de distribuição para ficar à disposição de um maior público no modelo tradicional de exibição.

Para o CineEsquemaNovo é fácil olhar de fora e falar sobre este pretenso novo embate entre os  grandes festivais que agora buscam uma curadoria mais arejada versus os distribuidores que lá estão. Porto Alegre é um festival notória e intencionalmente de menor porte, uma “quarta via”, que nasceu em 2003 para valorizar o filme de autor, a pesquisa de linguagem, o encontro do cinema com as artes visuais e a produção independente com algo diferente a dizer e que não encontrava janelas de exibição. O “mercado” nunca foi sequer uma questão concreta no CEN para nele haver esta dialética. Ano passado fizemos o primeiro esforço nesta direção, com a palestra de Eva Morsch, organizadora do Cine en Construcción na Europa, aqui e aqui, que falou e deu dicas sobre como funciona o processo de financiamento do CEC, e ainda recebeu realizadores locais que a ela apresentaram seus projetos.

Voltando ao ponto, foi portanto com prazer que vimos autores e artistas com presenças nas edições passadas do CineEsquemaNovo, de formas mais ou menos expressivas, alargarem ainda mais as fronteiras de circulação de suas obras ao ganharem prêmios importantes em Brasília. Não estamos dizendo o absurdo pretensioso de que o CEN tenha sido o limite deles até o momento – este post não tem nada a ver com chauvinismo. Pelo contrário: é muito bom ver nomes cujas obras gostamos e nos interessam, enquanto festival de discussão e encontro com pesquisas de linguagem e sem pensar em mercado, serem também reconhecidos pelo, aham, “mainstream” dos festivais brasileiros, mesmo  em um ano onde Brasília se dedicou efetivamente a premiar “novos” nomes (entenda-se, “não bajulados pela grande imprensa”).

Resumo da ópera: transitar com legitimidade entre estes dois mundos, alcançar da primeira à quarta via, não é para qualquer um.  Torcemos por muitas e muitas pessoas assistindo a estes trabalhos premiados.

“O Céu Sobre os Ombros”

Estes novos são sobretudo mineiros, os grandes vencedores de Brasília 2010 – aí temos que reconhecer e lembrar que a mineirada é uma muito querida parte da memória afetiva e estética do CEN. O engraçado é que depois sofremos o impacto dos cearenses, via sobretudo Alumbramento, e partes deles se juntaram no grande premiado do festival esta semana, “O Céu Sobre os Ombros”, uma produção da Teia, de Belo Horizonte: são todos grupos organizados que não parecem esperar por holofotes para desenvolver seu próprio trabalho. Serem reconhecidos em diferentes níveis em Brasília ontem à noite foi conseqüência, e não causa.

Sérgio Borges, Tiago Mata Machado, Pablo Lobato (MG), Ricardo Pretti, Ivo Lopes Araújo – que não levou mas merece ser citado (CE), Sissa Dullius (RS) e todos os demais: recebam os nossos parabéns.
Alisson Avila

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