CEN-E promove seminário com Ricardo Alves Jr. após exibição de filmes

O primeiro seminário do Cine Esquema Novo Expandido, com Ricardo Alves Jr., foi realizado no Santander Cultural na noite de sexta-feira, dia 21 de junho, logo após a sessão que exibiu os quatro curtas-metragens do cineasta, “Material Bruto”, “Convite para Jantar com o Camarada Stalin”, “Permanências” e “Tremor” – este último em estreia nacional no CEN-E.

Ricardo AlvesA conversa com o público se deu em torno de dois assuntos principais: as diferenças entre “Tremor” e os três curtas anteriores de Ricardo e a relação entre a mise-en-scène e o alongamento dos planos que marca a sua obra. Para o cineasta, “Tremor” é um filme que se  diferencia dos demais sobretudo do ponto de vista da narrativa, que é mais delineada. Ao contrário dos outros curtas, nos quais Ricardo investe prioritariamente no registro dos corpos, dos gestos e de pequenos acontecimentos, em “Tremor” vemos um personagem com uma ação mais determinada – segundo o próprio cineasta, uma descida ao inferno em busca da esposa.

Na construção de sua dramaturgia bastante peculiar, Ricardo explora a provocação da encenação e a partitura física. Para manter a dramaturgia e a narração, trabalha maximizando eventos mínimos e potencializando uma sensação de claustrofobia através dos modos como compõe os espaços e coloca os corpos dos atores a se relacionar com este espaços, como se o filme “quisesse explodir para fora do quadro a todo momento”, como explicou.

Ricardo Alves

Neste processo de criação, a experiência do realizador com o teatro é influência determinante, uma vez que a forma de trabalhar não apenas o espaço, mas também a luz, os sons e a direção de atores remete a uma dramaturgia teatral. “É como uma ideia de teatro ao vivo, de preparar o evento para filmar. Disso surgem as composições com planos muito longos, como se o filme preparasse o terreno para que algo saia do controle”, disse Ricardo. Este algo que sai do controle são determinados gestos, eventos mínimos que ganham uma enorme dimensão nas obras: acender um fósforo, fumar, observar a chuva, lavar a louça, tossir ou mesmo a simples fumaça que emana de uma panela de pressão.

O alongamento dos planos também abre espaço para que o espectador amplie o seu olhar em relação aos filmes e se concentre em outros aspectos, para além de qualquer ação imediata que se espera que ocorra na cena. Chamam a atenção os elementos plásticos explorados nos planos que não apenas são longos, mas também são em grande parte fixos. A ação pictórica se dá na construção de quadros com determinadas cores, na exploração de luzes e sombras e ainda da penumbra.

Também surgiu na conversa com o público uma discussão sobre a afeição do cineasta pelo universo psíquico, uma vez que Ricardo Alves Jr. costuma trabalhar com integrantes do grupo Sapos e Afogados, núcleo de criação e pesquisa composto por atores que são usuários da rede pública de saúde mental de Belo Horizonte. O cineasta explicou que procura trabalhar o delírio como potência criativa e poética, e que o interesse vem também do contato com o diretor teatral e pesquisador Luiz Carlos Garrocho, com quem já trabalhou como assistente de direção.

“Tormenta Ressonante”, videoinstalação inédita concebida especialmente para o Cine Esquema Novo Expandido, foi criada em parceria com a atriz Viviane Ferreira, integrante do Sapos e Afogados. A obra surgiu a partir de uma carta-provocação de Viviane a Ricardo, propondo um trabalho conjunto de performance em que um corpo psicótico dançasse com arame farpado, madeira e tijolo. A obra integra a exposição que será aberta na próxima terça-feira, dia 25/06, na Galeria Ecarta. Confira uma imagem do trabalho.

Tormenta Ressonante

Consulte aqui informações detalhadas sobre os filmes de Ricardo Alves Jr. que estão sendo exibidos no CEN-E e também a videoinstalação “Tormenta Ressonante”.

Quem não assistiu aos filmes na sessão do dia 21 terá uma nova oportunidade: os curtas do cineasta serão exibidos novamente no CEN-E na terça-feira, dia 25/06, às 17h no Santander Cultural.

Texto por Gabriela Ramos de Almeida e Jamer G. Mello

Fotos de cobertura do evento por Roberto Vinicius

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *