Competitiva Brasil – intro

CEN 2016

CINE ESQUEMA NOVO 2016

 

A ARTE AUDIOVISUAL BRASILEIRA EM TEMPOS DE RESISTÊNCIA

É curioso que um termo que signifique tanto sobre o que acontece com a imagem e som no mundo de hoje não seja algo presente já no cotidiano de todos: ARTE AUDIOVISUAL. Precisamos falar sobre ela, entendê-la, trazê-la para perto de nós. Recontextualizá-la, para que as linguagens que a ela pertencem não estejam em mundos isolados: festivais de cinema de um lado, bienais de arte do outro. Sala de cinema de um lado, espaço expositivo de outro. Mas o Cine Esquema Novo não pensa desta forma. Desde a sua primeira edição, ainda no princípio deste milênio, que uma crença (ou um conceito, ou uma causa) sustenta a sua existência enquanto festival: vivemos em um mundo onde a imagem está em todos os locais. Um estímulo autoral pode estar à disposição para fruição, interação e reflexão em qualquer lugar, independentemente da questão narrativa. É assim que fazemos o nosso festival: algo livre e aberto, sem preconceitos formais.

Ao longo dos anos, entre idas e vindas, o CEN abraçou diversas questões: identidade, bitolas e formatos, abertura ao desconhecido, cinema expandido. Em 2016, falamos sobretudo de RESISTÊNCIA. Resistência da película num mundo digitalizado, resistência da arte em meio a ataques censores, resistência das liberdades versus o moralismo retrógrado, resistência política (e tudo é política) diante de uma nova onda conservadora tsunâmica. Queremos acreditar que a programação que preparamos para esta edição atua como uma barreira que protege os nossos mais lindos delírios. Porque a vida, e por consequência a arte, é feita de realidade mas também de sonho. E onde termina um, e começa o outro? Eis o mistério que transforma o delírio em mudança; eis a necessidade de “construir a barreira” que o faz resistir.

Nossa principal constatação, ao assistir aos quase 600 trabalhos inscritos e convidados para a Competição Brasil do CEN 2016, é que a expansão formal da produção audiovisual brasileira é um caminho absolutamente irreversível. Desenhar sua curadoria e escolher 44 trabalhos de 59 artistas, que serão exibidos na Cinemateca Capitólio, Goethe-Institut Porto Alegre, Instituto Ling e pelas paredes e ruas da cidade não é um processo pacífico. Assim como não são muitas das obras selecionadas. Nelas, há guerra. Há resistência. Delas, emerge uma política-estética multi e transgênero, indígena, anárquica, reminiscêntica, desbocada, ética, amoral. Uma poética apocalíptica. Que mesmo quando não é, é.

O trabalho de curadoria, como é sabido, vai muito além de um filme ser “o melhor” ou “o mais premiado”. Tudo tem a ver com a construção de um sentido, e para isso acontecer é necessário levantar questões: o quê esta obra questiona? Qual o lugar dela no contexto em que vivemos? Será a sala de cinema o melhor lugar para transmitir esta mensagem? Como podemos programar tantos filmes de forma que o diálogo entre eles traga novos significados? Não sabemos, mas tentamos.

Percebemos este ano, por exemplo, um número ainda maior de obras que trabalham com a MEMÓRIA, tendo como material bruto imagens de arquivo. O que é compreensível, enquanto reflexo de um contexto atual caracterizado pela produção e armazenamento geométricos de uma “informação audiovisual” muitas vezes carente de contexto e significado; bem como é compreensível enquanto reflexo da permanente necessidade humana de rever-se para tentar se entender. E metaforicamente falando, tal aspecto da “organização da memória” não poderia vir em momento mais oportuno, pois este ano o Cine Esquema Novo adota a Cinemateca Capitólio como sua sede – e é lá que estão os arquivos dos milhares de trabalhos inscritos desde o primeiro festival, em 2003. É lá que está boa parte da memória do audiovisual produzido no RS. Local de cinefilia, preservação e amor ao cinema. À imagem.

É diante de todo este contexto que o CEN 2016 também recebe a mostra “Resistência em Película”, com curadoria da produtora Pátio Vazio (também co-produtora do festival este ano), integralmente dedicada a coletivos europeus que sustentam, produzem, desenvolvem e “militam” processos técnicos-artesanais em 16mm. Bem como a oficina “Traços de Luz Colorida”, com o duo alemão OJOBOCA, que vai explorar a manipulação e criação neste suporte. E a oficina “Gestão de Acervos Audiovisuais”, com Fernanda Coelho, pesquisadora de conservação audiovisual e ex-Coordenadora de Preservação na Cinemateca Brasileira.

Preservação, resistência, memória. Mas também, como em todos os anos, presente e futuro: seja enquanto reflexo da produção brasileira contemporânea, seja enquanto investimento nas novas gerações – a exemplo da mostra universitária Audiovisual em Curso, presente na programação deste ano, e construída em colaboração com os estudantes de diferentes faculdades de cinema e artes visuais do Rio Grande do Sul. Ou seja, ainda, enquanto reinvenção da sua própria estrutura: o Cine Esquema Novo volta a realizar sua Competição Brasil anualmente, a partir de 2017.

Em tempos estranhos, não podemos deixar de enviar nossas mensagens. Sejam elas orientadas para resistir, permitir ou evoluir. Tudo isso é o festival: seja bem-vindo ao CEN 2016.

Cine Esquema Novo:

Alisson Avila, Gustavo Spolidoro, Jaqueline Beltrame, Ramiro Azevedo

 

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