Entrevista: Affonso Uchoa (MG), realizador do longa “Mulher à Tarde”

Algumas perguntas para Affonso Uchoa, realizador do filme “Mulher à Tarde“, selecionado para a Mostra competitiva de longas-metragens do CEN 2011. O longa ganhou menção honrosa do júri jovem na 13a Mostra de Tiradentes, foi eleito melhor Longa-metragem 2010 prêmio SESC/SATED e recentemente levou o Troféu Filme Livre na Mostra do Filme Livre 2011, no Rio de Janeiro.

Sinopse: Três mulheres em uma casa. Por uma tarde.

CEN – Em “Mulher à tarde”, as ações e o ritmo geral do filme são bastante lentos, espaçados e dilatados dentro dos planos. Você imaginou produzir algum tipo de sensação que poderia ser sentida pelo público que vê o filme?

“Mulher à tarde” é um filme que tem dois princípios básicos: um, pictórico, que seria focar na relação entre cinema e pintura; e o outro narrativo, que seria o privilégio de uma dramaturgia do banal e do vazio dramático, sem eventos grandiosos e destacados do comum. Muito afeitos a essa lacuna do drama, os tempos mortos me interessavam. Nesse jogo com a pintura, há uma descoberta aparentemente banal, porém surpreendente: cinema é movimento. Daí explorar as imobilidades, o desajuste do corpo, vivo, que o cinema traz na tarefa de posar, de ser detido pelo tempo. Os tempos mortos, ações cotidianas, dramas da vida (cinema de ritual) somados à necessidade de visão, explorar o quadro: o mundo detido como pintura, pra mim, pediam tempo.

Assista ao trailer:

[vimeo http://vimeo.com/8543849]

CEN – Como você relaciona o tempo do seu filme com os tempos cinematográficos?

Se o tempo de duração de um plano for pensado como somente o tempo necessário para informar ao espectador uma ação do personagem, não é esse o tempo de “Mulher à Tarde”. Se o tempo do plano for pensado em função do corpo do deslocamento, também não é esse o tempo de “Mulher à tarde”. Assim como o tempo pensado em função do ritmo de uma narrativa, em função dos acontecimentos. Não há distinção de mérito, apenas de procedimento. Em “Mulher à Tarde” há o tempo da observação: relação corpo e espaço. Há personagens, alguns conflitos indeterminados, psicologia esvaziada e melancolia. Mas há cores, composição, massas e linhas. No mesmo quadro, para serem vistos como coisas juntas, complementares. Corpo-personagem e espaço-cenário pictórico. Em “Mulher à Tarde”, a razão para um gesto, uma postura, uma ação das personagens não é somente narrativa, mas também visual. Logo, o tempo dedicado ao personagem e a cena é pensado em função tanto do narrativo, quanto do visual.

CEN – Você é um cinéfilo? Quais são suas influências cinematográficas em “Mulher à tarde”? Há outras influências, no sentido de não cinematográficas?

Em cinema, para o filme, gosto de “Deserto Vermelho”, do Antonioni, “Filme de amor”, do Júlio Bressane, “A flor do mar”, de João César Monteiro, “Last days”, de Gus Van Sant, “A cor da romã”, de Paradjanov e “O padre e a moça”, de Joaquim Pedro. O fato é que há filmes que sequer pensei. Por ora, acho que isso serve aos propósitos. Fora do cinema, guiou-me um poema da Ana Cristina César, em que há o verso: “dizemos com os olhos, de um silêncio que não é mudez”. Tal verso me lançou para a construção de um filme que dissesse mesmo quando as palavras faltassem, que atingisse mesmo quando a narrativa fugisse. Também caminha com o filme os poetas Paul Celan e Herberto Helder.

CEN – No que você está trabalhando neste momento?

Agora realizo uma ficção com atores não profissionais filmada desde 2009 no bairro Nacional em Contagem-MG chamada “A Vizinhança do Tigre”. No momento procuro meios de finalizá-la.


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