Entrevista: Carlos Dowling, realizador de “Baptista Virou Máquina” (PB)

Algumas perguntas a Carlos Dowling, realizador de “Baptista Virou Máquina”, selecionado para a Mostra competitiva de longas-metragens do CEN 2011. Carlos Dowling é diretor, produtor e roteirista, e possui pós-graduação em roteiro de cinema e televisão pela Escuela Superior de Artes y Espectáculos de Madrid, na Espanha. Dirigiu “Funesto – Farsa Irreparável em Três Tempos” (1998), “A Sintomática Narrativa de Constatino” (2000), “GOD.O.TV” (2002) e “Felizes São os Touros ou Le Petit Mort” (2003), entre outros filmes. “Baptista Virou Máquina” é fruto de uma experiência que mistura música e cinema, pois é ao mesmo tempo o álbum de estréia da banda Burro Morto, de João Pessoa/PB e também a peça audiovisual inspirada neste disco, dirigida por Carlos Dowling e ilustrada pelo artista plástico Shiko.

Sinopse: Futuro pós-industrial, a cidade deserta, BAPTISTA trabalha solitário incessantemente numa oficina de soldas. Sonha com músicas, sons do prazer humano olvidado. As máquinas sonham com os últimos devaneios da humanidade. Trilha visual de disco homônimo da banda BURRO MORTO.

CEN – Isso é um grande clipe ou um musical?

Nem cá, nem lá, quiçá Dó_Ré… diria que são vários clipes que juntos fazem um musical, ou uma ‘trilha-visual’ que acompanha a proposta instigante de um disco instrumental que conta com ambiência narrativa e um personagem protagonista, como inicialmente propostos e compostos pela banda Burro Morto, que me trouxe o rompante da ideia de fazermos uma obra audiovisual integrada, sons equilibrando imagens. Logo depois o conceito foi apresentado para a equipe de produção audiovisual, que se deleitou com a possibilidade de experimentar uma improvisação fílmica nos molde de uma improvisação musical, uma jam session audiovisual.

Frame de “Baptista Virou Máquina”

CEN – Mesmo traduzindo músicas, o filme aponta para uma narrativa personificada e coesa. Quem é Baptista afinal, qual a sua história?

O argumento original surgiu dos integrantes da banda Burro Morto, que antes mesmo de ter o nome do disco “Baptista Virou Máquina”, criaram o universo narrativo-musical, de um futuro terceiro-mundista pós-industrial incerto, onde a humanidade, aprisionada por máquinas, era desperta pela música. A partir desse argumento base, Baptista foi ganhando vida, a sua transformação em máquina fazendo-se ver, assim como sua liberação onírica-musical. O filme usa, além da maior parte do material rodado especialmente para o filme, cenas não utilizadas de “GOD.O.TV”, um curta que dirigi em 2002, fruto do primeiro Prêmio Sal Grosso, em que Tavinho Teixeira e Servílio Holanda faziam improvisações num estúdio de TV como apresentadores metereológicos, baseadas nos personagens Pozzo e Lucky de “Esperando Godot“. Esse material foi pouco utilizado no curta à época, e a cada ano falava com Tavinho, “temos de fazer alguma coisa com aquele material, está bom, e não entrou quase nada no filme”, e ai durante a feitura de “Baptista Virou Máquina”, oito anos depois, me veio a ideia de máquinas telemáticas que sonhavam com Beckett, ai foi a válvula-escusa para utilizarem o material do outro curta, que abre espaço para uma discussão de que gosto muito que é a noção de sampling audiovisual, ou seja, a ação de reutilizar e recompor obras distintas usando uma mesma fonte audiovisual matriz, que é pouco assimilada no cinema ficcional, mas algo já decantada e pacificamente incorporada no campo da música nas últimas décadas. E acabou sendo uma experiência boa a de contar com os mesmos dois atores em performances com oito anos de diferença, revelando um hiato temporal não planejado e belo.

CEN – O filme foi feito em cooperativa? Explique essa junção artística.

Baptista Virou Máquina” só se faz possível enquanto filme com a participação integrada num modelo cooperativo-orgânico de toda a equipe. O filme foi feito com R$ 16 mil, além do apoio institucional da ABD-PB, do NPD-PB e do SEBRAE, que são a base do projeto que nasceria logo depois do Filmes a Granel (leia mais sobre a cooperativa aqui), que pessoalmente acho uma das coisas mais bacanas e instigantes que vi surgir nos últimos tempos na Paraíba.
Uma coisa que acho importante de comentar sobre o processo de preparação e filmagem é que o roteiro não existiu como um documento fechado e finalizado antes do filme rodado. Não defendo isso como modelo padrão, de abolir o roteiro, penso que cada projeto diferente é um processo específico e singular, e assim cada filme pede um processo de roteirização específico. Nesse caso, como baseado nas composições musicais prévias, cada música era uma pauta que inspirava sua locação e situação dramática específica, que relacionando-se coma as outras músicas-sequências ia em busca de uma coesão narrativa, mas sem uma indicação muito precisa e detalhada, foi uma aposta na afinação da equipe de criação, que deixa de ser só técnica, mas integra a composição coletiva no processo da criação audiovisual. E essa criação coletiva é potencializada em larga escala quando instaurado um clima de participação proativo, numa orquestração fina de variados impulsos criativos, que passa necessariamente por juntar os pares pra fazer um filme por ganas, não por granas.

A banda Burro Morto (João Pessoa/PB)

CEN – No que você está trabalhando neste momento?

Acabamos de rodar agora com quase a mesma equipe de “Baptista Virou Máquina” um programa piloto para testar e interatividade num protótipo para TV Digital que chama “A Arte e a Maneira de Abordar o seu Chefe Imediato“, episódio piloto “A Arte e a Maneira de Pedir um Aumento ou As Sete Pontes de Konigsbërg“, que estreou agora no começo de abril na 1ª Feira de Inovação Tecnológica Audiovisual – XPTA.LAB na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Fizemos uma versão com interatividade para rodar no middleware GINGA pra TV Digital, e uma versão sem interatividade, que pretendo exibir no Hora-Extra no CEN desse ano.
Pra cooperativa Filmes a Granel preparo um curte super compacto, três atrizes e um ator numa locação interna, que chama “Appendix“, e devemos rodar agora no segundo semestre.
Além disso, preparo com o grande amigo e parceiro Shiko uma animação curta-metragem que chamava “A Vida Profissional“, e agora chama acho que “Shotguns“, que temos de finalizar até o fim do ano.
E trabalho num longa-bonsai (pelo tempo de cultivo, não tanto pelo tamanho) há pelo menos cinco anos, que chama “Bestiário” e quero rodar no ano que vem.
Como produtor de projetos musicais, desenvolvo agora o segundo disco do projeto Chicorrea & Electronicband, chamado “Baile Muderno” e aprovado no último edital da Petrobras, deve ficar pronto até o fim do ano…
Que lembre é isso, alguns muitos tentáculos para domar.

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