Entrevista: Cláudia Nunes fala sobre “Número Zero” (GO)

Algumas perguntas a Cláudia Nunes, realizadora de “Número Zero”, selecionado para a Mostra competitiva de curtas e médias-metragens do CEN 2011. Jornalista, Cláudia Nunes tem voltado o seu olhar a temáticas sociais. Além dos jovens em situação de risco, que são tema e personagens de “Número Zero”, ela produziu um filme sobre conflitos no campo e na cidade, “Rapsódia do Absurdo”.
“Número Zero” é resultado de um workshop de vídeo que Cláudia Nunes realizou na década de 90 com crianças e adolescentes do antigo Centro de Formação de Menores. Muitos dos registros foram feitos pelos próprios jovens e o material permaneceu bruto durante quase 20 anos, até que a realizadora decidiu montá-lo. O filme ganhou um prêmio especial no 14˚ Festival Internacional de Documentários e Curtas-Metragens do Egito e foi exibido no Festcine Goiânia e no forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte.

Sinopse: A ONU estima a população mundial de meninos de rua em 150 milhões. 40% são sem teto, porcentagem sem precedentes na história da civilização. Na América Latina, eles são 40 milhões. Em Goiás, meninos e meninas encantaram-se tanto por uma câmera que apropriaram-se dela para contar suas estórias.


CEN – Por que voltar a estas imagens 20 anos depois de tê-las feito?

É estranho. Na verdade, penso mais a respeito do motivo de tê-las mantido guardadas por 20 anos sem mexer do que porque voltei a elas. Voltar a elas é o natural uma vez que nunca foram editadas. Não tenho muitas respostas. No ano passado, encontrei-me por acaso com o educador de rua Tião Taveira, que na época fazia uma oficina de teatro com os meninos e foi a pessoa que me introduziu no Centro de Formação de Menores. Começamos a recordar toda a experiência e desse encontro surgiu a necessidade de fazer o filme, de reencontrar os meninos e meninas através dele e assim poder contar novas estórias.

CEN – Onde estão aquelas crianças? Elas viram o filme?

Não sei muito sobre elas. Estamos começando a pesquisar e agora, procuramos os contatos das pessoas que também as conheciam, que trabalhavam com elas. Vários morreram assassinados pela polícia, em brigas e overdose. Um deles é educador de rua e tem uma família, outro também tem uma família e formou-se em Administração, e uma menina casou-se com um alemão e mudou-se para a Europa. Elas não viram esse filme, o “Número Zero”, mas durante os anos que passamos juntos, assistíamos quase todos os dias tudo que filmávamos. Essa dinâmica nos bastava na época, ríamos e conversávamos muito. Talvez por isso nunca tenha editado as imagens.

CEN – Como é/foi para ti, como jornalista, fugir da “reportagem” óbvia e da imposição do repórter na realização do teu trabalho? Pretendes revolucionar a reportagem televisiva?

Fugir da “reportagem” óbvia e da imposição do reporter foi natural e irrefletido, quer dizer, intuitivo. Eu filmava tudo e não amarrei a câmera nem quando parecia que eles iam destruí-la (risos), porque eles ficaram encantados e seria muita sacanagem impor limites. Eu confiava e eles confiaram de volta. A relação deslanchou, ficamos amigos muito rápido. Na verdade, foi muito bagunçado, não tinha método. É claro que eu estava ali como a repórter que eu era, mas eu não me ocupava disso. Eu me misturava e observava. A ideia era mesmo filmar tudo. Tudo era importante, até as coisas aparentemente mais bobinhas, que depois te proporcionam possibilidades de uma narrativa muito mais rica. Mas isso você só descobre depois. Comigo foi assim.
É meio pretencioso dizer que pretendo revolucionar a reportagem televisiva e eu nem acho que tenha muita solução pra ela nesse sistema atual (risos), mas penso que quanto mais o jornalismo se aproxima do cinema e da antropologia mais interessante fica.

CEN – No que você está trabalhando neste momento?

Estou trabalhando na continuação do “Número Zero” com foco na pesquisa pra descobrir onde estão os meninos e as meninas. Ainda não sei que tipo de narrativa vai ser. Pra ser sincera, não tenho a menor ideia. No início, vou filmar tudo, de novo, os primeiros encontros. E sei que vou encontrar a narrativa que estou procurando a partir daí. Muito intuitivo, né? Vai ver não tem jeito mesmo (risos).
Acabei de fazer o “Sendai”, um filme experimental sobre a tragédia do Japão feito com uma cena do “Número Zero”. E também estou começando o projeto de um curta sobre o mar, “O Mar de Maria”, que mistura cenas reais e animação em stop motion.

Assista aqui a “Rapsódia do Absurdo”, documentário de Cláudia Nunes montado a partir de imagens de arquivo de lutas no campo e na cidade nas localidades de Fazenda Santa Luzia e Parque Oeste Industrial, ambas em Goiás.

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