Entrevista: Felipe Bragança, um dos realizadores do filme “A Alegria”

Algumas perguntas para Felipe Bragança e Marina Meliande, realizadores dos filmes “A Alegria” e “Desassossego”, ambos selecionados para a Mostra competitiva de longas-metragens do CineEsquemaNovo (leia aqui a entrevista sobre “Desassossego”, além de informações sobre outras produções da dupla).

“A Alegria” participou de vários festivais, como Rotterdam 2011 (Bright Future Section), Cannes (Quinzena dos Diretores 2010) e Brasília 2010, onde ganhou os prêmios de Melhor Direção de Arte (Gustavo Bragança) e Melhor Ator Coadjuvante (Rikle Miranda).

Sinopse: Fábula sobre a coragem. Luiza tem 16 anos e não aguenta mais ouvir falar no fim do mundo. Em uma noite de Natal, seu primo, João, desaparece nas ruas da cidade. Algumas semanas depois, sozinha em seu apartamento no Rio de Janeiro, Luiza recebe uma visitante no meio da noite lhe pedindo abrigo.

Assista aqui ao trailer de “A Alegria”:

[vimeo http://vimeo.com/17116605]

CEN – Recentemente foram lançados diversos longas nacionais voltados para o público adolescente ou com esta temática – “Antes que o Mundo Acabe”, “Morro do Céu”, “As Melhores coisas do Mundo”. Como “A Alegria” dialoga com os demais e em que se diferencia?

Em comum acho que há um desejo de lançar um olhar sobre questões da formação idenditária de uma geração crescida de 1992 para cá – em um país e numa perspectiva planetária de utopias rarefeitas e referenciais políticos amenizados. Há de especifico no “A Alegria”, acho, a ideia de que isso se dá dentro e através da cidade na qual os personagens vivem, habitam e se desenvolvem. Não falamos de jovens globalizados em qualquer lugar do mundo. Falamos daqueles meninos crescendo em uma cidade com as questões, sonhos e imaginário do Rio de Janeiro que nos é, a mim e Marina, tão relevante e visceral.

CEN – Ao longo do filme, a imaginação dos protagonista se torna mais evidente, ao ponto de materializar-se. Comente esta escolha durante o processo de roteirização.

O eixo central do filme são os afetos, a imaginação e as possibilidades identitárias da protagonista Luiza, na cidade do Rio. A materialização de seus delírios, sonhos e “visões” não foi, portanto, uma opção de estilo ou narrativa, mas uma questão de crença nossa no próprio lugar da imagem como lugar da liberdade e de construção de brechas no realismo reacionário. Queríamos crer no prazer da imagem, acima de tudo. Era o mínimo que podíamos fazer: ver através dos olhos dela.

CEN – No Brasil, o tema da relação da juventude com a violência é, na maioria das vezes, abordado de maneira especulativa. Qual o papel de “A Alegria” neste debate?

Acreditamos que a violência é um elemento do imaginário de nossa cidade muito mais complexo do que um joguinho de polícia e ladrão, de violência real x paz utópica. A juventude, os personagens jovens aqui, aparecem como filtros através do qual tentamos olhar essa violência cotidiana não como erro social, mas como elemento identitário da cidade e daqueles meninos, ultrapassando a ideia do “mal” x “bem”, e tentando mergulhar nesse universo de maneira mais porosa, sedutora, confusa. Sem violência, o Rio de Janeiro não seria o que é – nem o que tem de bom, nem o que tem de ruim, digamos assim. A ideia mais corrente (e contra a qual lutamos) da violência é, assim, uma generalização de uma série de elementos culturais, sociais e comportamentais da nossa cidade. “A Alegria” não se foca nisso como “tema”, mas tenta vislumbrar esse elemento do gesto violento para além dos clichês policialescos do cotidiano.

CEN – No que você está trabalhando neste momento?

Eu, Felipe, estou escrevendo dois roteiros novos que me convidaram a escrever e estou revisando o roteiro do próximo filme do Karim Ainouz, que escrevemos juntos há 1 ano. Enquanto isso, penso e espero para saber qual será meu próximo filme como diretor, que deve ser meu primeiro longa com direção solo. Já tenho algumas idéias possíveis em curso para breve. Sobre a Marina: além de seu trabalho como montadora de alguns longas de novos diretores, está focada em um média metragem documental que ela também dirige sozinha e que deve ficar pronto esse ano ainda.

Assista a uma entrevista de Felipe Bragança e Marina Meliande sobre “A Alegria”, gravada pelos jornalistas Cavi Borges e Rodrigo Fonseca em Cannes, quando o filme foi exibido na Quinzena dos Realizadores. Além do próprio filme, a entrevista discute temas como o caminho de filmes não-comerciais brasileiros em festivais internacionais e a participação de jovens realizadores num festival como Cannes:

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* “A Alegria” vai ser exibido quinta-feira, dia 28, às 18h na sala P. F. Gastal, e depois novamente na sexta, dia 29, às 16h30 no Cine Bancários. Ambas as sessões serão seguidas por debates com a participação de Marina Meliande.

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