Entrevista: João Toledo (MG), um dos realizadores de “A Janela (ou Vesúvio)”

Algumas perguntas a João Toledo, realizador do filme “A Janela (ou Vesúvio)” juntamente com Leonardo Amaral (diretor de “Quatorze”). Ambos os filmes foram selecionados para a Mostra competitiva de curtas e médias-metragens do CEN 2011. “A janela (ou Vesúvio)” já foi exibido na Mostra Minas em 2009 durante o 11º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, e em 2010 no 15º Festival Brasileiro de Cinema Universitário, sendo vencedor do prêmio Destaque em Retrato da Realidade Nacional. Leia na Revista Cinética o comentário de Eduardo Valente sobre o filme para a Cobertura diária do FBCU. João Toledo e Leonardo Amaral são redatores da Revista Eletrônica Filmes Polvo e fundaram, junto com Gabriel Martins, a produtora Sorvete Filmes. O grupo mineiro também assina a direção de “Estado de Sítio“, um dos três longas vencedores da última edição da Mostra do Filme Livre.  Leia mais sobre a 10º MFL aqui no blog do CIneEsquemaNovo.

Sinopse: Neto e avô são interrompidos por um estranho barulho.

Frame de “A Janela (ou Vesúvio)”

CEN – Estamos todos presos?

Em alguma medida, sempre estivemos e sempre estaremos. Somos seres sociais, localizados no tempo, e isso pressupõe a partilha de uma série de valores e normas que nos atravessam e nos condicionam de algum modo. Isso não é necessariamente negativo, pois precisamos compartilhar de signos para nos comunicarmos. Gozamos de razoável autonomia, mas certamente há dispositivos que nos regulam e nos condicionam a um olhar deturpado e simplista da realidade. A mídia há muito institui e legitima saberes que buscam o controle através de uma ordem consensual. É difícil saber em que medida escapamos disso, mas o esforço da subjetivação (e da criação) é um ato de resistência que nos permite tencionar esse consenso, e almejar novas liberdades.

CEN – A banalidade da violência e do cinema que aborda ainda pode surpreender?

Tanto para a mídia quanto para o cinema, a violência me parece uma questão de “efeito”. Tornarmos-nos insensíveis a ela têm se relaciona com o tipo de exploração gráfica, narrativa e moral que se faz nesses meios. No entanto, se ela perde sua força de impacto, essa narrativa deixa de fazer sentido. Para isso, o cinema não cessa de reinventar os efeitos de violência por meio da tecnologia para que continuemos impactados. Mas me parece que, em certa medida, grande parte desses efeitos já perdeu o referente, se esvaziou em um procedimento técnico. Isso pode ser nocivo, na medida em que se torna a regra. Nem toda imagem de um ato brutal é uma imagem brutal. E nem deve ser. Mas, eventualmente, não se pode furtar a encarar essa brutalidade. Nesse sentido, me parece fundamental que produções cinematográficas abordem o tema buscando questionar o uso de sua imagem. Espero que acreditem antes na experiência que no efeito, que problematizem os filtros, que se posicionem. Dito isso, espero que a violência no cinema ou na mídia nunca deixe de nos surpreender – ainda que seja para questionarmos uma abordagem leviana e cruel. É preciso que isso nos afete.

CEN – Um cinema com fundo social é necessário, ou a TV já mostrou / já mostra tudo?

Não sei dizer sobre o que é ou não necessário. Quer dizer, parece ser responsabilidade da arte lidar com as questões urgentes de seu tempo. Por outro lado, não se pode atribuir à arte nenhum papel. É ela quem deve responder a isso, ditar seu próprio papel.  Entretanto, o cinema que me interessa fazer é o cinema que pretende refletir sobre a realidade que conheço; é uma realidade social, política, econômica, cultural e tudo mais. Mas, trata-se de uma abordagem bem distante de um viés sociológico, que fala em nome do “outro”, que pretende humanizar uma classe ao dar-lhe uma imagem justa. Creio que seja importante abrir-se ao mundo do outro – sem necessariamente discursar por ele. É preciso estar aberto, atento aos sinais do mundo, desejoso de diálogos, de dialética. Qualquer realidade me interessa, e é interessante que toda realidade se represente, de dentro e de fora, e que se questione também de dentro e de fora. Importante destacar que tanto o olhar para a realidade próxima quanto o olhar para a realidade mais distante, não devem (nem podem, em última ánalise) se despojar da perspectiva pessoal. Uma imagem pressupõe um olhar – que não deve ser suprimido. Já sobre a TV, tenho uma visão um pouco mais pessimista. A realidade não passa na TV. O estatuto de verdade de suas imagens é perigoso. É mais um instrumento regulador que revelador. Se ele mostra tudo, por outro lado não revela nada.

CEN – No que você está trabalhando neste momento?

Nesse momento, tenho trabalhado em várias coisas. Eu e alguns amigos mineiros terminamos nosso primeiro longa-metragem intitulado “Estado de Sítio”. Estou também encerrando a montagem de um curta que fiz com um amigo do Ceará, Victor Furtado (diretor de “Raimundo dos Queijos”, outro curta selecionado no CEN 2011). Existem alguns projetos na ilha, alguns roteiros prontos, milhares de idéias para curtas, longas e até séries. Mas estou realmente animado com um projeto de longa, para ser dirigido em parceria com Leonardo Amaral e Gabriel Martins ainda em 2011. É um filme simples, sobre três amigos. Mas é também um filme sobre a cidade, sobre a vivência urbana. Como quase todo projeto nosso, parte da vontade de fazer algo que gostaríamos de assistir no cinema. É um projeto sem edital, mas esperamos fazer da forma mais cuidadosa possível. A urgência desses projetos não obedece à lógica das leis de incentivo. Precisamos fazer. E, na medida do possível, fazemos.

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