Entrevista: Leonardo Luiz Ferreira e Gustavo Beck, realizadores de “Chantal Akerman, de Cá”

Algumas perguntas para Leonardo Luiz Ferreira e Gustavo Beck, realizadores do filme “Chantal Akerman, de cá”, selecionado para a Mostra competitiva de longas-metragens do CEN 2011. O filme, que vai ser exibido pela primeira vez em Porto Alegre no CineEsquemaNovo, foi selecionado para vários festivais no Brasil e no exterior, como o Festival Internacional de Documentário de Marseille, na França, o forumdoc.bh.2010 – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte, o BAFICI – Festival de Cinema Independente de Buenos Aires e o Festival de Cinema Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira, onde ganhou prêmios especiais do júri e da crítica.

 Sinopse: Um vídeo de entrevista.

 

 CEN – Como foi a recepção da Chantal ao ver o filme?

Leonardo Luiz Ferreira: O Gustavo Beck, co-autor do filme, esteve na casa da Chantal, em Paris, para entregar pessoalmente o documentário para ela. Queríamos que ela fosse uma das primeiras a assistir o resultado final e contar com sua benção para a carreira do longa. Algum tempo depois da visita, a Chantal escreveu um e-mail para o Gustavo agradecendo a realização do trabalho e dizendo que ela se reconhecia nele. Em suas próprias palavras, descrevia como “um belo retrato”. E não poderíamos ficar mais contentes com esse feedback tão positivo por parte de Chantal Akerman.

 CEN – Foi difícil manter a proposta original do filme e resistir às tentações da ilha de edição de acrescentar planos, imagens de arquivo, vídeos da artista como referência?

Leonardo Luiz Ferreira: Quando assistimos ao filme integralmente na sala de montagem percebemos que o retrato era muito forte quando apresentado em um único plano-sequência, e qualquer corte que fosse feito alteraria essa fluência e vida na tela. É uma relação espaço-temporal que se estabelece entre o olhar da câmera e a personagem: os cortes ou imagens de arquivo quebrariam essa relação. Experimentamos até uma segunda versão em que haveria um corte para a câmera interna, só que logo descartamos essa possibilidade; o aspecto cinematográfico do quadro foi uma proposta desde o início.

 CEN – A forma de retratar o depoimento da Chantal parece respeitar os processos dela como autora: uma forma impessoal de filmar, um observador do outro lado, sem interferir, apenas testemunhando. O filme se aproxima da obra da entrevistada não só pelo discurso, mas pela forma como é apresentada ao espectador. Como foi este processo de criação? Vocês se sentiram próximos de Chantal?

Leonardo Luiz Ferreira: Somos admiradores da obra de Chantal Akerman e percebemos uma grande oportunidade para registrar a sua passagem pelo Brasil, no início de 2009, durante uma retrospectiva no CCBB. O projeto nasceu com uma certa urgência, uma vontade de registro. Em 10 dias pensamos e desenhamos possibilidades para estabelecer uma ligação próxima com seu trabalho. No decorrer da projeção se percebem ligações com seus filmes, mas mais do que uma homenagem, tenta-se estabelecer um olhar para com a personagem. O silêncio, a distância e a observação aproximam tanto a equipe quanto o espectador da Chantal. É um registro íntimo em que cada gesto é realçado tanto quanto cada uma de suas falas.

 CEN – No teu longa anterior, ‘A Casa de Sandro’, o tratamento ao personagem pode ser colocado lado a lado com ‘Chantal Akerman, de cá’, embora este seja realizado a quatro mãos. Parece ser a tua linguagem: mostrar sem interferir, pela janela, pela porta, pela fresta. Do ponto de vista do espectador, é como se fôssemos presenteados com um momento que pode ser visto por poucos: apenas por quem está do outro lado, espiando. O que vocês pensam sobre isso?

Gustavo Beck: O trabalho de decupagem construído para estes dois filmes foi pensado para privilegiar o lugar do personagem. Oferecer um espaço que lhe é próprio, sem intervir fisicamente, mas ainda assim sendo capaz de contaminar com a câmera e com a equipe, que se tornam os outros personagens. Estar distante querendo estar próximo. Apreender seus gestos para os conhecer.

No que você está trabalhando neste momento?

Leonardo Luiz Ferreira: Eu tenho um roteiro de ficção para curta-metragem finalizado e pronto para ser filmado ainda em 2011. É um projeto que acalento há dois anos e agora devo realizá-lo depois de me dedicar inteiramente a “Chantal Akerman, de cá”. O filme se chama “Paisagem Interior” e é um conto moral sobre o amor. Já o Beck trabalha na montagem de um novo documentário com título provisório de “Laranjeiras”, e sem previsão de finalização, e terminou de escrever um roteiro de ficção para longa-metragem (“Terraço”).

Assista ao trailer de “Chantal Akerman, de Cá”:

[vimeo http://vimeo.com/22452903]

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