Entrevista: Marcelo Pedroso fala sobre o filme “Pacific” (PE)

Algumas perguntas para Marcelo Pedroso, realizador do filme “Pacific“, selecionado para a Mostra competitiva de longas-metragens do CEN 2011. O filme foi montado a partir de vários registros amadores e pessoais produzidos por turistas que fizeram um cruzeiro entre Recife e Fernando de Noronha e se filmaram durante a viagem. “Pacific” gerou uma interessante troca de correspondências entre Marcelo Pedroso e o crítico e pesquisador Jean-Claude Bernardet que trouxe à tona questionamentos sobre ética documental, padrões estéticos, espetáculo, encenação e a transposição do privado ao público. O filme foi exibido na 29ª Bienal de São Paulo, na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes e em vários outros festivais, e ganhou prêmios de melhor filme na 9ª Mostra do Filme Livre, no 4º Panorama Coisa de Cinema de Salvador e no 1º CachoeiraDoc (BA).

Sinopse: Uma viagem de sonho em um cruzeiro rumo a Fernando de Noronha. As lentes dos passageiros captam tudo a todo instante. E eles se divertem, brincam, vão a noitadas. Desfrutam de seu ideal de conforto e bem-estar. E, a cada dia, aproximam-se mais do tão sonhado paraíso tropical…


CEN – Foi fácil encontrar e convencer pessoas que acreditassem na tua história de fazer um filme com as imagens íntimas de cada um?

Eu nunca estive pessoalmente no navio. Foi uma escolha deliberada mesmo, preferi me manter distante para me relacionar apenas com as imagens e o que elas me traziam. Portanto, quem fez toda a negociação em torno da liberação das imagens foi uma equipe de produtoras que embarcou no Pacific e lidou diretamente com os personagens. Todas as conversas foram muito francas, elas diziam que estávamos fazendo um documentário com imagens dos passageiros e quem topava cedia o material. Acredito que aproximadamente um quarto das pessoas convidadas toparam entrar no filme. E, segundo as produtoras, a adesão era acompanhada por entusiasmo em estar fazendo parte de um documentário.

CEN – As pessoas ficam mais tontas num navio ou vendo as imagens em câmera na mão, balançando a tela?

Temos relatos de pessoas que ficaram nauseadas (algumas chegando mesmo a vomitar) em praticamente todas as sessões do filme! Então acabou que a tremedeira involuntária da câmera serviu como uma espécie de simulação das condições reais do navio. Um efeito colateral indesejado que se tornou parte da história. :)

CEN – Chegaste a pensar em procurar as pessoas antes da viagem? Como achas que seria o resultado se os passageiros filmassem sabendo que aquilo viraria um filme, em comparação com a tua escolha?

Esta era, de fato, uma possibilidade. Cheguei a cogitá-la principalmente enquanto estava inseguro quanto à possibilidade de as pessoas cederem as imagens. A proposta era: se as convidássemos antes, teríamos mais chances de obter as imagens. Mas, evidentemente, o filme seria totalmente diferente. A partir do momento em que elas soubessem que as imagens seriam usadas num filme, toda a mise-en-scène se construiria em torno do que elas imaginavam que seria adequado ao documentário. E isso eu não queria. Não porque achasse que seria um filme menor – ou menos verdadeiro. Absolutamente. A questão era que me interessava o ato fabulatório espontâneo, a orquestração de signos que irrompe no ato corriqueiro de registrar momentos que lhes são importantes. A seleção desses momentos e as narrativas ligadas ao desejo, à memória, à visibilidade. Quem eu sou é como eu quero ser visto. Então decidi que o convite aos personagens só seria feito depois que eles já tivessem filmado.

CEN – No que você está trabalhando neste momento?

Acabo de terminar um curta de ficção e devo partir para um novo documentário em maio. Chama-se “Câmara escura” e é, de alguma forma, também uma busca de como falar do outro nos filmes. Uma tentativa de entrever formas para se criar imagens do outro.

Assista ao trailer de “Pacific”:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=3Pu27lFIX7E]

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