Entrevista: Ricardo Alves Júnior, realizador de “Permanências” (MG)

Algumas perguntas para Ricardo Alves Júnior, realizador de “Permanências”, selecionado para a Mostra competitiva de curtas e médias-metragens do CEN 2011. Em 2007, Ricardo Alves Júnior recebeu prêmio especial do júri do CineEsquemaNovo pelo filme “Material Bruto”, que também ganhou prêmio de aquisição Sesc TV no Festival Internacional de Curtas de São Paulo e menção honrosa no Festival Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, em Portugal. “Material Bruto” foi exibido ainda no Alucine – Festival de Cinema Latino de Toronto, no Canadá, e na  Video Zone – Bienal Internacional de Videoarte, em Israel. Por “Permanências”, Ricardo Alves Júnior levou o prêmio de Melhor Filme na III Janela Internacional de Cinema do Recife, em 2010.

Sinopse: Do lado de dentro o ar é mais denso.

CEN – As fronteiras entre cinema e artes visuais parecem estar cada vez mais tênues, quando falamos de uma produção como a contemplada no CineEsquemaNovo. Como tu vês esta circunstância?

Acho que cada vez mais o caminho é a mistura do cinema com as artes visuais. Já vemos isso em diversos festivais, tais como Oberhausen, a mostra Orizzonte da Bienal de Veneza ou o Rencontres Internationales Paris/Berlin/Madrid – Nouveau Cinema et  Art Contemporain.  Já a última Bienal de São  Paulo, trouxe diversos trabalhos de realizadores dito do cinema, tais como Pedro Costa, Chantal Akerman e Apichatpong Weerasethakul, e isso já vem acontecendo em diversos museus do mundo, basta ver a programação do Centre Pompidou ou o Malba, em Buenos Aires.

CEN – Teus filmes convidam o espectador e uma espécie de transe, de contemplação. Tu sentes isso com relação aos teus personagens?

Exatamente o que proponho nos meus filmes é uma experiência de contemplação, tão difícil hoje num mundo  mediado e multiplicado pela ágil produção e recepção de imagens. Mas esse tempo proposto pelos filmes não é um tempo aleatório, como uma intenção exclusiva da realização. Busco nas “personagens” e nos espaços esse tempo que emana através das imagens. Antes mesmo de ligar a câmera, o estar ao lado das pessoas, vamos juntos ditando o tempo de cada plano. Essa contemplação ou hipnose que emana dos planos é ditada ao ritmo interno de cada pessoa, cada “personagem” que vamos encontrando durante a filmagem. Digo isso, por exemplo, do média “Permanências”. Cada quadro é a permanência daquela pessoa, sua respiração, seu batimento interno, suas marcas deixadas pelo tempo, elas em si são hipnóticas.  Penso sempre na palavra “mistério”. Por isso trabalho com os silêncios entre das pessoas, e realmente quando falam, falam de um momento singular de sua vida. Tal como nos meus outros curtas, gosto de trabalhar com elementos mínimos, certo minimalismo para representar o mundo dessas pessoas. É um trabalho sobre o que pode ser essencial para construir esse mundo fictício. Vivemos num mundo onde cada vez mais as relações humanas são programadas, roteirizadas. Isso ganha maior força no cinema. Acredito que devemos proporcionar um espaço de criação para o espectador, onde cada um possa habitar as imagens, e com a duração dos planos sentir-se vivo, sentir o próprio corpo vibrando no tempo. Permanências é  um filme que valoriza os mínimos gestos, os olhares, a respiração. Acredito que a historia de cada “personagem”do filme está na cartografia do rosto, isso é,  na escritura, nas marcas que a vida inscreve na pele.

CEN – Tanto “Material Bruto”, um dos teus filmes anteriores, quanto “Permanências”, têm uma relação cuidadosa e delicada com os sons, as imagens, os personagens. Os tempos parecem respeitar a ação, como se não houvesse tua interferência. Como é o processo de direção? Qual tua relação com estes personagens de “Permanências”?

Em “Material Bruto”, “Permanências” e também em “Convite para Jantar com o Camarada Stalin” todos  partem da observação. Observar as pessoas tal como são. Não como eles se exibem frente a câmera, mas numa relação entre pessoas. Antes de começar a filmar permaneço um tempo ao lado delas, escuto, pratico mais a escuta que a fala. Compartilho com suas presenças. Observo cada gesto, o tempo de respiração. Gosto de ver como as pessoas se relacionam com espaço, como elas habitam os lugares.  Nesse processo já vou pensando na composição, na luz, nos sons. Minha relação com o processo é muito importante, nas tentativas e erros, nos caminhos desconhecidos é que vai surgindo o filme. É um tipo de processo que vem da minha experiência com o teatro. Onde cada dia vai se descobrindo e orquestrando os elementos. Bem, de maneira mais sintética: primeiro observo, dessa observação anoto, destaco determinados elementos que serão nossa guia (roteiro), dessa guia trabalho a composição (espaço, corpos, luz, movimento), trabalho sobre o plano. Depois o trabalho da montagem e edição de som, portanto, um novo desafio, pois quase sempre o som é totalmente recriado, filmo com som direto, mas gosto de recriar esses sons para construir a atmosfera.

Então essa aparente não interferência é fruto de um processo com tempo, pois cada plano não acontece como uma sorte, mas sim é base de uma construção onde cada elemento está justamente posto e com finalidade expressiva. Trabalho, portanto para construir uma falsa ilusão de não interferência.

Sobre minha relação com os personagens do “Permanências”, esse filme foi realizado num conjunto habitacional de Belo Horizonte. Esse mesmo conjunto foi locação para o curta “Material Bruto”. Já faz cinco anos que sempre que estou em Belo Horizonte volto a esse lugar sempre. Para filmar “Permanências” aluguei uma apartamento nesse conjunto, minha equipe, fotografo, técnico de som e eu, ficamos vivendo lá por 45 dias. Isso foi muito importante para estreitar ainda mais nossa relação com os personagens.

CEN – No que você está trabalhando neste momento?

Acabei de fazer um novo trabalho com os mesmo atores e equipe do curta  “Material Bruto”,  que formaram um núcleo chamado “Sapos e Afogados”. Criamos uma Residência Artística & Habitação Criativa intitulada CasaBreve, onde os atores portadores de sofrimento mental viveram nessa casa durante um mês. Trabalhamos varias performances, que foram registradas e apresentadas ao público na abertura da casa. Trabalho também num projeto de um longa intitulado: “Elon Rabin não Acredita na Morte”.

Assista aqui aos curtas de Ricardo Alves Júnior.

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