Entrevista: Sara Ramo (MG), realizadora de “A Banda dos 7”

Algumas perguntas a Sara Ramo, realizadora do filme “A Banda dos 7”, selecionado para a Mostra competitiva de curtas e médias-metragens do CEN 2011. Nascida em Madrid, Sara Ramo vive e trabalha em Belo Horizonte. Suas obras são marcadas por uma forte interseção entre artes visuais e cinema, e não por acaso grande parte delas ganhou exibição em galerias de arte e mostras como a Bienal de São Paulo e o programa Rumos Itaú Cultural. Alguns de seus filmes e fotografias podem ser assistidos/vistos aqui.

Sinopse: Um grupo de músicos circunda um muro, desaparecendo e reaparecendo em combinações aleatórias, alterando a composição da música tocada com seus intrumentos. Seu movimento inebria pela atmosfera fantasiosa e lúdica, deflagrando mundos imaginários onde há desordem e dúvida.

 

 

Frame “A Banda dos 7″

 

 

 

CEN – Assistimos seu filme pela primeira vez na Bienal de São Paulo, a maior exposição de arte do Brasil e uma das maiores do mundo. Agora, “A Banda do 7″ será exibido em nosso festival de cinema. Como você vê a relação de cinema e artes visuais no Brasil?

O meu interesse (diria paixão) por cinema foi fundamental na formação como artista. Nos primeiros anos de esta formação, fui mais assídua no cinema (sobretudo na Filmoteca em Madrid e no Cine Humberto Mauro em Belo Horizonte) e tive mais acesso aos filmes do que às exposições. Lembro que, ao recriar imagens, vinham sempre a minha cabeça cineastas como Herzog, Fassbinder, Antonioni….
A arte contemporânea tem uma enorme facilidade para incorporar o novo e também para abarcar diferentes disciplinas, e temos vários exemplos de cineastas expondo em bienais e museus, como Godard, Chantal Akerman ou Pedro Costa. Por outro lado, pelo que sei, muitos editais de cinema ainda tem uma questão de formato, categorias longa e curta, o que seria muito interessante repensar. Temos muito a ganhar com uma maior interação entre disciplinas e inclusive me atrevo a dizer que estamos em um momento em que as limitações impostas por categorias artísticas começam a declinar – um começo incipiente, mas sólido.

CEN – Você prefere exibir seus filmes na sala de cinema ou em galerias de arte? Qual é a diferença? Vale a pena este tipo de comparação?

Quando você fala em galerias de arte, eu imagino que esteja se referindo a instituições também, é isso? A galeria de arte é sempre um lugar ideal pois tem o silêncio e recolhimento que não tem em uma instituição muito visitada, como pode ser uma bienal ou um museu. Normalmente meus vídeos são bastante contemplativos e exigem uma certa paciência do espectador, então, quando os vídeos estão em uma sala expositiva, muitas vezes a pessoa passeia pelo filme, vê um trecho ou outro e se tem muita gente ou a imagem não capta sua atenção, apenas fica uns segundos. Mas digamos que a instituição é mais democrática que a galeria, a instituição está muito ligada à educação, tem uma maior preocupação em fazer chegar o trabalho a um amplo público.
No cinema o espectador está, por assim dizer, diretamente induzido a ver aquilo que tem à sua frente, tudo envolto em uma aura que somente existe nas salas de cinema, o silencio, a escuridão…. está sentado à espera. Isto é muito positivo e pode potencializar alguns trabalhos. Por outro lado, se o espectador não consegue entrar nesse ritmo lento em que as mudanças são sutis e há uma ação repetitiva, sem narração linear, pode ser exaustivo.

CEN – “A Banda dos 7″ tem uma clara ligação com a música – ritmo, tempos, volumes, duração, etc. Você procurou traduzir música em imagens? Isso é possível?

“A Banda dos 7” nasceu de uma velha idéia, um projeto que tinha escrito para uma bolsa na Espanha, mas que não saiu. Começou com a obsessão do muro, o muro como tela e os músicos passando ao longo do muro. Estava imaginando como seria aquela banda da pequena vila que toca nos dias de festa, como na musica do Chico, mas na minha cabeça era uma banda sem espectadores, uma banda que tocava por tocar.
Conversando com alguns amigos músicos, a questão da melodia e ritmo começou a tomar mais importância, eles perguntavam se eu pensava em instrumentos de vento ou de metal, em como ia acontecer o descompasso…
Trabalhei com Ivan Canteli, que foi o diretor musical, e essa troca é que foi realmente interessante, pois além de compor a melodia, me ajudou a pensar em música, que é uma matemática que eu tentava embaralhar a partir de conceitos como Fuga ou Canon, e isto era novo para mim. Ao fazer o vídeo, era importante fazer coincidir a música e a imagem, tínhamos que organizar a bagunça para dar pautas aos músicos. O vídeo funciona como uma caixa de música, como uma espécie de eterna repetição aleatória. E é importante nele a idéia do funcionamento de um grupo e suas individualidades, e nisto a formação de uma banda funciona como um catalisador perfeito.

Set do filme “A Banda dos 7″ – Crédito Raquel Versieux

CEN – No que você está trabalhando neste momento?

Em maio viajo a Montevideo, lá vou mostrar a “A Banda dos 7” e preparar uma exposição para o final do ano. A instituição que me convidou, o EAC (Espacio de Arte Contemporâneo) foi construído sob as bases de uma antiga prisão. Por enquanto estou trabalhando com imagens de este espaço, mas a idéia é estudar fisicamente o lugar e traçar um novo projeto. Estou logicamente muito seduzida pela idéia da prisão, mas ainda é tudo muito incipiente. Também preparo um workshop e uma pequena conversa em público para o EAC e o Centro Cultural de España, no Uruguai.

Assista aqui a uma entrevista de Sara Ramo em que a artista comenta o seu filme “Quase Cheio, Quase Vazio”, de 2008, que pode ser visto aqui:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=2ujW-cX-HkU]

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