Entrevista: Sérgio Borges (MG) fala sobre o filme “O céu sobre os ombros”

Algumas perguntas a Sérgio Borges, realizador do filme O céu sobre os ombros, selecionado para a Mostra competitiva de longas-metragens do CEN 2011.  O filme teve sua pré-estréia na 10º Mostra do Filme Livre e levou cinco troféus – inclusive os mais desejados, filme e direção – no 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro,  além de montagem, roteiro e um prêmio Especial do Júri para seus personagens-atores. Sua exibição já ocorreu também em festivais como a 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes, e o Festival de Cinema de Roterdã, na Holanda. Recentemente, O céu sobre os ombrosparticipou do BAFICI – ­13º Buenos Aires Festival Internacional de Cinema Independente, na sessão Panorama, foi selecionado para a Competitiva Internacional  do IndieLisboa 11 – 8º Festival de Cinema Independente que ocorrerá em Lisboa, Portugal, entre os dias 5 e 15 de maio, e para o 29º Festival de Cinema do Uruguay. O longa “A Falta que me faz”, de Marília Rocha, produzido pela Teia, também participa do festival uruguaio. Esse é o primeiro longa de Sérgio Borges, que já foi premiado no primeiro CEN, em 2003, com o filme “Através”, e também na edição de 2009, com “Perto de Casa”.  Ele integra o Coletivo Teia, um grupo de pesquisadores e produtores que trabalha de forma colaborativa e já realizou cerca de 36 filmes em curtas, médias e longas-metragens. Leia mais sobre a história  do CEN #1 aqui.

Leia aqui sobre a participação da Teia nessa e em outras edições do Festival CineEsquemaNovo.

Sinopse: Alguns dias de alguns personagens anônimos, comuns. São histórias inventadas pela vida, de pessoas que convivem, com a marginalização. O filme é um gesto para revelar o quanto somos todos tão humanos, e quão semelhantes são nossos medos e desejos.

Frame de “O Céu Sobre os Ombros”

CEN – “O céu sobre os ombros” é seu primeiro longa, recebeu o prêmio de melhor filme em Brasília e está sendo selecionado para vários festivais importantes. O que você está achando dessa experiência? Você está satisfeito com o circuito disponível para exibir seu filme?

O filme tem me dado um ótimo retorno nos festivais de cinema e sua realização se completa quando há o encontro com o público. Estou muito feliz com o “diálogo” de “O céu sob os ombros” com as pessoas.  Os festivais têm um público “especializado”, que vai ao encontro do filme, mas surge a vontade de disponibilizá-lo para um público maior e mais diverso. Acredito que mesmo com todo um condicionamento audiovisual advindo da TV no Brasil, esse filme, que não corresponde ao modelo estético e narrativo vigente, interessa a um público além do circuito de festivais. No Brasil hoje, temos todo um sistema voltado para comercialização de filmes de “grande público”, dentro de uma lógica industrial de venda de entretenimento. Há cada vez mais salas nos shoppings e menos salas de “cinema de arte”. Ainda assim, vamos fazer todo o esforço possível para lançar o filme no circuito comercial, tentando criar novas formas de chamar a atenção para um filme “pequeno” dentro desse circuito.

Os primeiros financiadores das salas multiplex eram agro-empresários americanos plantadores de milho, e hoje temos toda uma cultura de assistir cinema comendo pipoca, então podemos entender que a cadeia de produção de arte está vinculada a interesses financeiros. Temos que encontrar um espaço criativo para ser explorado e propor novas lógicas, mesmo diante de um cenário pouco animador. E além de um circuito oficial estabelecido, é importante pensarmos em outros circuitos de exibição, em outros segmentos de público. Apenas 8% das cidades brasileiras têm salas de cinema. Um dos caminhos que vamos tomar é disponibilizar o filme para o Cine Mais Cultura, cineclubes que estão em mais de 1000 pontos no Brasil, nas cidades do interior e na periferia de grandes centros urbanos.

CEN – Seu filme dialoga com uma série de experiências artísticas nas quais podemos observar a mistura entre dois gêneros a princípio diversos: ficção e documentário. Com este tipo de experiência contribui para seu processo criativo? Você também identifica este tipo de prática em outras obras? O que, para você, poderia explicar a disseminação desta prática?

A relação entre realidade e criação está no cerne da experiência humana. É algo muito mais antigo do que o cinema. Existe pela auto-reflexividade do ser humano. Quando nós pensamos, projetamos nossos desejos e sonhos, criamos com nós mesmos uma ficção de como queremos existir no espaço-tempo que chamamos de realidade.  É o roteiro dessa ficção que estrutura e materializa a realidade da forma que a percebemos. Realidade e imaginação são conceitos separados para tentar explicar a existência, mas no fundo uma se retroalimenta da outra. No cinema, ficção e documentário sempre se misturam e é isso que complexifica um filme, que traz a tensão entre a vida e a representação da vida. Mesmo o mais “genuíno” filme do gênero de ficção é a documentação dos corpos dos atores, dos espaços do mundo, dos pensamentos do autor. Um documentário é o recorte visual e sonoro de uma realidade, um olhar subjetivo, e, portanto uma representação da vida.

Cada vez mais nos reconhecemos com a representação de nós mesmos. Representamos diversos personagens e papéis sociais. As câmeras que tudo filmam são extensões dos nossos olhos, e espelhos que refletem o nosso modo de subjetivação da realidade. Adotei esse olhar como procedimento processual pelo simples fato de que, quanto mais próximos  estamos do que chamamos de realidade, mas complexa tende a ser a expressividade da representação da realidade. O cinema é a linguagem artística que traz consigo o maior potencial de termos a sensação de que estamos vivendo a vida, e não observando a representação da vida. Fruímos com ela de uma maneira muito natural, pois são representações de imagens e sons. E o ser humano se guia pela visão e audição prioritariamente.

CEN – Vários momentos do filme lidam com situações-limite que, se numa ficção já são difíceis, em um filme que flerta com o documentário a questão é ainda mais intensa. Como se deram estas situações-limite em termos de tema e de personagens na confecção do filme?

Entendo essa pergunta também como uma pergunta sobre ética. E acho que em nossa sociedade, ética é muito confundida com moral. Todos os atores do filme são inteligentes e sensíveis o bastante para ter consciência da imagem deles estampada no filme. E em grande parte, para ter consciência de que a imagem deles não é o que eles são de fato. Isso é um filme, uma expressão artística. O filme tem a sua narrativa, seus personagens criados a partir da própria vida dos atores, visto que atores e personagens derivam dos mesmos corpos e que essa realmente foi a proposta de encenação. Escolhemos as pessoas que representavam aquilo que queríamos mostrar, e claro, aqueles que queriam se mostrar. Escolhemos pessoas que, de uma maneira que consideramos mais explícita, exercitam o ato de criarem personagens para si mesmos na própria fruição da vida. A escolha por situações-limite do ser humano é deliberada para a composição da dramaturgia do filme. Sem isso, esses personagens não seriam complexos, não seriam potentes, não revelariam sua humanidade. Acredito que as pessoas, ao verem o filme com atenção, são invadidas pelo sentimento de que todos nós vivemos situações-limite. Acho que isso tira o foco do pessoal e o traz para o arquétipo humano. espectador mira não o ator, mas a si mesmo.

Entendo que eles são personagens e não importa se os fatos e situações-limite são reais ou forjados. São as duas coisas. Mas é interessante notar que, várias situações que para muitas pessoas é de foro íntimo ou até constrangedoras, para essas pessoas é algo natural, corriqueiro, normal. Esse é o ponto. E o retorno que o filme costuma gerar é de que ele chega muito perto dessas pessoas, mas é extremamente delicado e respeitoso.

CEN – No que você está trabalhando neste momento?

Estou editando o making off de “Girimunho”, novo longa da TEIA, dirigido por Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr. e trabalhando o roteiro de outro filme da do coletivo, “Balança mas não Cai” de Leonardo Barcellos.

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