Entrevista: Tavinho Teixeira, realizador do longa Luzeiro Volante (PB)

Algumas perguntas a Tavinho Teixeira, realizador do filme “Luzeiro Volante“, selecionado para a Mostra competitiva de longas-metragens do CineEsquemaNovo. “Luzeiro Volante” é o primeiro longa realizado por Tavinho Teixeira, ator paraibano que atuou no longa “Baptista Virou Máquina“, de Carlos Dowling, também selecionado para o CEN 2011. Essa parceria entre Tavinho Teixeira e Carlos Dowling é fruto das produções coletivas da cooperativa paraibana Filmes a Granel (leia mais sobre a cooperativa aqui). O longa de Tavinho é uma espécie de road movie e mostra um andarilho que tem fixação por água e energia elétrica. Tavinho faz parte do elenco de seu próprio filme, juntamente com sua filha Mariah Teixeira (atriz que participou do longa Baixio das Bestas, de Cláudio Assis), Ely Cabral e Diego Tresca.

Sinopse: Deixai o mais distraído dos homens mergulhar em seus sonhos mais profundos: ponde-o de pé, movimentai-lhe as pernas, e ele infalivelmente vos conduzirá para a água.

“Luzeiro Volante”

CEN – Como foi a construção do roteiro deste trabalho? Pelo que pudemos perceber, o roteiro foi um work-in-progress durante toda a etapa de filmagens.

Há mais ou menos um ano atrás recebi uma ligação de São Paulo, era Mariah dizendo : “pai, tá tudo acabado, vem pra junto, minhas pernas não estão mais respondendo ao meu comando”. Ela estava separando do companheiro, apartando os troços, vivendo esse momento suspenso, desnorteado, e tinha o compromisso de no dia seguinte fazer um filme em Vinhedo – SP. Naquela madrugada saí de João Pessoa ao seu encontro.

Lá, enquanto Mariah se preparava para o filme, eu matava o tempo conversando, ao telefone, com Fred (irmão e parceiro nesse road-script). Desses momentos, surgiram as ideias para um possível roteiro. Criamos um esboço: Um personagem sem passado vagava pelo mundo ao acaso. Isso era importante, estar ao acaso. Ele encontrava alguém em condição semelhante. Esse alguém deveria caminhar filmando os fios de alta-tensão como se traçasse um caminho possível para que na volta, ele pudesse lembrar o lugar de origem. Achamos que o primeiro personagem deveria ser Mariah e que, como os outros, não deveria carregar nenhum peso do passado exceto suas pequenas mochilas.

Passaram-se alguns dias, e eu, já me adaptando à equipe do filme de Bruno de Melo Castanho (de quem tornei-me amigo) em Vinhedo, falei o argumento pra Rogério Che (fotógrafo), Diego Tresca (ator) e Juliana Vicente (produtora), todos integravam a equipe do filme dele.

O filme de Bruno terminou – começamos a filmar.

Não tínhamos som direto, apenas a câmera. Escolhíamos planos e locações na hora. O acaso começou a fazer sentido, criar potências, começamos a existir. Pegávamos a estrada e dizíamos:”é aqui, pára o carro, Ely”. Ely Amaro é um pernambucano que estava sendo motorista na equipe de Bruno e acabou virando nosso ator fazendo o personagem que carrega uma pedra puxada por um cordão. Tempo nublado, chuva, sol, tudo era parte do plano. Deveríamos estar prontos pra tudo. Um dos personagens usava uma câmera todo o tempo, filtrava a própria vida, o seu destino. Desejava saber para onde ir através da lente. Ele representava o nosso desejo de fazer um filme. Estávamos todos entregues ao acaso.

Ao voltar a São Paulo filmamos mais alguns planos complementares. Voltei pra Paraíba, associei-me ao Filmes a granel, fui o contemplado do mês e comecei o trabalho de acabamento. Fizemos uma primeira montagem (eu e Ely Marques), sentimos que tínhamos um longa, mas precisávamos achar o nascedouro do filme. Pensava em ir para as águas correntes, assim o Luzeiro tomaria fôlego, e eu também queria uma abertura e um final operísticos. Decidi ir pra Foz de Iguaçu. Mas, naquele momento,  nem Mariah pôde ir (estava em cartaz numa peça em São Paulo), nem Rogério Che. Liguei pra uma amiga fotógrafa paraibana que mora no Rio, Erica Rocha. Soube que ela havia chegado de Nova Iorque com uma câmera incrível. Chamei-a para ir a Foz de Iguaçu filmar as Cataratas, ela topou e ainda levou um tripé. Nos encontramos em São Paulo, pegamos o ônibus e fomos nós dois.

Havia feito contato com a hidrelétrica de Itaipu e também com o Parque Nacional de Iguaçu, onde ficam as cataratas. Lá, na mesma ordem do acaso, conseguimos uma roupa de trabalho e o personagem tornou-se um funcionário da hidrelétrica de Itaipu. Filmamos na hidrelétrica por três dias e depois nas cataratas. Logo criamos uma primeira sinopse: Funcionário de hidrelétrica atormentado pela força das águas presas, causa um apagão e sai em busca das águas correntes.

Depois vieram mais montagens. Carregava comigo o HD e por onde passava ia ajustando com os amigos. Montei novamente com Ely Marques em João Pessoa, com Juliana Munhoz em São Paulo, em Fortaleza com Fred Benevides que também tornou-se o colorista e Danilo Carvalho, criador de todo o desenho sonoro.

Assista a um recorte de “Luzeiro Volante”:

[vimeo http://www.vimeo.com/22687040]

CEN – Este filme é um projeto quase artesanal, no mais legítimo faça você mesmo. Além de dirigir, você atua e contracena com sua filha – em cenas bastante ousadas. Comente como foi trabalhar num projeto com estas características.

Sentia desde o início como se estivesse fazendo um poema desses que já nascem longos, tentei fazer dele um hai.cai, mas foi impossível, não se deve tentar impedir o volume d`água.

Um projeto como esse te coloca em dia com o fluxo da (a)ventura. Assim vejo o Luzeiro Volante, como mais uma possibilidade de aventurar-se, de sentir na viscosidade do pântano as forças elétricas, de mudar o estado das coisas, lançar o corpo na estrada, perceber nas tonalidades da luz os signos que permeiam o acaso, dançar sob os fios de alta-tensão, retornar a si, tornar-se mítico – resplandecer.

Mariah cursou a mesma escola de teatro que eu, no Rio de Janeiro, enquanto Fred fez filosofia. Ambos foram morar comigo na mesma época no Rio, Fred com 17 e ela com 15. Desde muito cedo somos uma trupe-garagem, fazíamos performances um para o outro e nos tornamos o público amoral mais exigente de nós mesmos. Gostamos de várias coisas em comum, investigar o estrago, por exemplo, é uma delas.

CEN – No que você está trabalhando neste momento?

Tenho trabalhado em filmes da nossa cooperativa, a Filmes a Granel, em João Pessoa, em produções de amigos em Recife e Fortaleza e estou finalizando um livro de poesia intitulado: “Composições para um baque livre“. Também trabalho num roteiro de um curta com Mariah e Fred e estou bastante empenhado em ajudar minha mãe a reconstruir o seu galinheiro devastado pela estranheza do tempo. O tempo tem estado estranho.

www.filmesagranel.blogspot.com

* “Luzeiro Volante” é um dos longas selecionados para a Mostra competitiva de longas-metragens do CEN 2011.
Será exibido nesta terça-feira, dia 26, às 18h, na sala P.F. Gastal (Usina do Gasômetro), seguido de um debate com a presença do diretor, e também no dia 27, às 16h30, no Cine Bancários.

Confira a programação completa do CineEsquemaNovo 2011 aqui.

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