Entrevista: Wallace Nogueira, realizador de “Álbum de Família” (BA)

Algumas perguntas a Wallace Nogueira, realizador do filme Álbum de Família, selecionado para a Mostra competitiva de longas-metragens do CineEsquemaNovo 2011. Wallace é formado em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e participou de diversos projetos de curta e média-metragem, com destaque para “Bom Zezé Contra os Maus Políticos“, selecionado para a Mostra Competitiva do I Festival de Vídeo da TVE, e “Damião e Cosme“, que participou do Festival Cinco Minutos em Salvador/BA.

Sinopse: O documentário conta a história da viagem de um filho, o diretor do filme, em busca das lembranças de sua família. Depois da morte de sua mãe, sua inquietude o leva a mergulhar em sua memória. Decide, então, convidar seu pai, que não encontra a muito tempo, para ir com ele buscar o álbum de família.

Assista ao trailer de “Álbum de Família“:

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CEN – O seu filme é marcante devido ao caráter pessoal que possui. Em que momento você optou por este tema tão íntimo e pensou: “este será meu próximo filme”? Como foi para você colocar tantas questões pessoais no papel em forma de roteiro e, depois,  forma de projeto e resultado final?

Em princípio fui movido pelo desconhecido. À doença de minha mãe marcava o tempo que ainda nos restava nesse plano. Ainda sem pensar num “filme”, em argumentos e estruturas dramáticas, eu vivia essa imagem do câncer através de uma pequena câmera de vídeo PAL. A sensação ingênua de querer estender o tempo, determiná-lo, nem que fosse pelo fotograma. Só tive a coragem de ver o que filmei depois de algum tempo de seu falecimento. A imagem para mim, sempre atualiza um espírito, do efêmero a eternidade. Existe por si. Mas o que isso significa? O que fazer com essas imagens? Eu ganhava a qualidade de espectador íntimo de mim mesmo, além de uma bela angústia. Aparentemente um beco sem saída. Entrar no tema da relação familiar é um mundo. O corte foi sacar a relação de meus pais, dos pais de meus amigos e das famílias que conhecia. Entre mim e meu pai havia uma confusão entre um amor profundo e um descuido mútuo, sentimentos acumulados que nos deixam desacreditados da relação. Herdeiros de uma construção familiar patriarcal, opressora e machista, esse tema estava cada vez mais presente. Então, apesar das imagens que tinha de minha mãe, percebia que esse filme era sobre mim e meu pai. O mais difícil foi manter as idéias claras e diretas, criar uma narrativa que pudesse falar desse problema, de minha mãe e de sua imagem que virava memória.

O fato de existir um álbum de família perdido numa fazenda, no meio da Chapada Diamantina, possibilitava que a história fosse contada. Em forma de Road Movie, a estrada no “Álbum de Família” é como uma linha progressiva da memória. Quanto mais avançamos mais íntimos nos tornávamos dos sentimentos de nosso passado. Mais intuitivos, mais abstratos. Formatar, construir, narrar e todos os processos que compreendem a produção de um filme, não seriam possíveis se não tivessem ao meu lado pessoas como Marcelo Matos de Oliveira (Produtor Executivo) e Diego Hasse (Roteirista e Assistente de Direção), além de outras, muito importantes para mim e para o filme. Foram muitos os momentos em que eu não tinha a mínima noção de para onde iria o filme. O fato de ser eu mesmo a pessoa a viver essa história, provocava uma mistura interessante e orgânica, mas não fechava uma narrativa, mais fácil era me ver num processo hermético e pessoal demais. Estabelecer a forma do filme e a técnica de construção para o roteiro, criou uma estrutura que serviu para mim também, para o Filho não se perder em lamentações. Daí, tudo que dizia respeito a história ou contribuía em momentos propriamente dramáticos, mas que não se encaixava na estrutura, estava fora. Devo dizer que meu pai, Heraldo Lima Silva, foi muito corajoso em me apoiar nesse projeto se expondo ao máximo, a ponto de eu como filho cuidar para que não fosse tomado pela culpa. Sua conduta foi impressionante desde sua presença de espírito até sua relação com um SET. Além de ser uma pessoa bastante carismática. Apesar disso, tive medo de até onde ele suportaria a lembrança, para que esta não virasse loucura.

Como fomos uma equipe pequena, acumulamos funções e criamos esses pilares que sustentaram o projeto e a mim (risos). Marcelo e Diego são dois grandes companheiros de confabulações, além de irmãos. Eles criaram para mim uma distância entre tudo o que estava sentindo e a linguagem audiovisual, não deve ter sido nada fácil, para mim não foi. Mas conseguimos através de uma narrativa bastante sensível, alcançar sentimentos mais profundos que as usuais contradições morais que abarcam o tema família em geral. Essa era uma grande preocupação, como sair do moralismo sem esvaziar a questão? Sem construir uma repulsa ao tema, amando a família ao extremo? E pela sensação, estabelecer uma ponte com o pensamento crítico em torno de nossa própria sociedade? Sei que a história é triste, mas o processo foi fantástico e o filme é uma realização sincera de sentimentos profundos e comuns feito com uma equipe maravilhosa, um privilégio.

CEN – Como foi exercer os papéis de diretor e personagem? Estas duas funções sempre estiveram separadas durante o processo?

Sim, a barba não era do diretor, era para o personagem (risos). Criar um outro para si para poder liberar a direção, era o maior desafio desse trabalho, quase em todos os níveis da realização do filme; livrando as partes mais técnicas. O segundo risco era cuidar para não parecer ‘fake’, o risco é sempre muito grande para qualquer filme, ou documentário que se pense enquanto co-criador do mundo que o envolve, que vá além do registro pragmático da realidade.
No Álbum de Família, parecia ser isso uma das coisas mais particulares no filme: um jogo, só que com uma realidade imensa nas costas, que era contar a história da minha família pelo viés crítico da realidade e lidando com o poder da imagem, da captura, do corte na montagem, com o risco de não conseguir falar o que parecia mais essencial. Conseguir ser “verdadeiro” parecia estar ligado aos sentimentos que me moviam a fazer esse filme e eles eram pesados – se trata de ir atrás desse passado que não se alcança mais, sem cair numa nostalgia hermética – o ‘diretor’ cair por terra, era possível, como aconteceu diversas vezes. Uma ação demasiadamente humana. Como diferenciar um espírito do outro? Usar o filho como recurso para que o diretor chegasse num pai mais íntimo e problemático, sem ser moralista. Em 62min não há tempo para tratar questões. Ao diretor compete a idéia de fazer valer o seu suor, a questão tomar corpo e saltar a tela, ou não seria um filme. Ao filho, que resolvesse sua questão depois do filme, se quisesse. Não dava para competir, fazer filme é uma coisa séria demais, mas também pode ser leve. Em geral, ele nos põe uma questão: a de  quem o assiste.
Em geral, ao Assitente de Direção cabia analisar a ‘cena’ junto ao Produtor; uma demanda que partia tanto da equipe quanto da própria direção, na desconfiança de si. A presença e participação da equipe foi um fator formidável e essencial para que o filme acontecesse.
Talvez a câmera, a estratégia de abordagem adotada para o “Álbum de Família”, criasse um fora de campo, cedendo um lugar confortável para a direção. Apesar de meu personagem estar apresentando a história do filme, ele funciona como um disparador, uma passagem para que o personagem pai possa ser. É um filme sensível sobre uma relação entre pai e filho que carregam uma morte entre eles, mas sentida principalmente através do personagem pai, quem conta a história. Para ser filho, bastava ser sincero e estar a vontade. Ficar a maior parte do tempo atrás da câmera facilitava o processo. Um lugar perfeito para se estar de fora como filho e de dentro como diretor.
Além disso, existem momentos no filme onde se atrapalham filho e diretor, em cenas onde o personagem pai se dirige ao personagem filho como diretor, com dúvidas sobre sua ação. Passagens que só aumentam a cumplicidade entre ambos, dando ao filme a intimidade que a história merece. Em tempo, permite um assunto familiar ser público sem ferir a integridade dos vivos e dando a devida importância aos que já se foram.

Frame de “Álbum de Família”

CEN – O seu projeto foi realizado através do Concurso DOCTV. No momento este projeto, realizado em 27 estados do Brasil, está parado. Você poderia falar um pouco mais sobre a importância e características específicas que tornam o DOCTV uma iniciativa ímpar no país?

As fases que envolvem a produção de um filme são muitas, e contar com o programa foi essencial para o projeto. É necessário fôlego para ir até o fim, passando pela surpresa de seu projeto emperrar anos em uma das etapas. Porém com a estabilidade do processo, a preocupação passa a ser o próprio projeto. O DOCTV é uma iniciativa que saiu da lógica de exploração da imagem pelo consumo, propondo visões de interesse maior e dando passagem a pequenos realizadores e produtoras independentes, pequenas escolas de fazer sonhos. Tencionar a linguagem da televisão talvez seja o ponto mais interessante do DOCTV. Basta dizer que é um programa sem precedentes por sua metodologia em abordar a linguagem audiovisual por uma idéia original, viabilizando novas formas de fazer pela criação e pelo espaço de exibição, num duplo gancho, realização e produção em progressão constante. Aprender a fazer dentro dos limites dos recursos cedidos, experimentações desde a criação até o produto final vislumbram a legitimidade de estar criando com incentivo do próprio estado. Além do encontro com pessoas que nos fazem pensar sobre a criação. Foi essencial para mim o encontro com o Jean-Claude Bernardet, não sei em que condições nos encontraríamos. Além de outros. A própria equipe já foi muito bom.

O programa é perfeito em fazer circular diversos documentários. Um movimento que produz uma pressão de abertura no mercado para o documentário brasileiro. O contato com realizadores de gerações diferentes enriquece a experiência de todos, uma noção da potência da cultura brasileira na forma de conceber o espaço, o tempo e a cultura nacionais. Um programa que deveria ter se tornado Política Pública. Infelizmente, como está acontecendo, sua fragilidade quebra a continuidade do processo de desenvolvimento e abertura da linguagem, e da apropriação dos meios de produção, que em geral se encontram nas mão de alguns. Apesar do desenvolvimento tecnológico, sem educação, tecnologia é consumo autômato. Hoje, sem políticas públicas que resolvam esse déficit, a solução seria o controle de mercado, como uma segunda estratégia possível. Sabe-se que pela pressão dos distribuidores, o governo subsidia a produção norte-americana e seu espaço de produção interna fica em função disso.

O cinema não existe sem mercado, o fato de o DOCTV ter em seu encalço o processo de distribuição pela TV, possibilita que pequenas produtoras independentes oxigenem sua produção nacionalmente. Mesmo com o programa em andamento, teríamos muito o que fazer. Isso é só o princípio. Mas sem ele, isso também significa a desvalorização do produtor brasileiro e o desinteresse na produção local. Estabelecido como está, o mercado não abastece essas ‘novas formas de fazer’.

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