História do CEN #4: 2007

Arte CEN 2007

 

Texto de apresentação do CineEsquemaNovo 2007

Como um festival de cinema que defende a criatividade, a experimentação, a inovação e a surpresa pode fazer isso em prol da sua própria causa a cada ano?

Tarefa nada fácil, essa. Não sabemos se conseguimos chegar lá, mas com certeza acreditamos que essa 4ª edição do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre, o nosso CEN 2007, é a que mais se aproxima daquilo que sempre pensamos para o festival. Simplesmente porque nos sentimos em evolução, independente de cada uma das versões anteriores ter nos alimentado, embasado e gerado mostras memoráveis – como os programas especiais para Rogério Sganzerla, Ruy Guerra, o “Cinema de Artista” e a “Mostra Noturnas Janelas”, além de todos os curtas, médias e longas-metragens selecionados para as mostras competitivas a cada temporada.

Mas para que em 2007 o CEN continue em processo evolutivo, temos que ir além da liberdade que pregamos e do acesso à produção autônoma provocada pelas novas mídias. Precisamos de uma idéia concreta, De uma identidade. Precisamos mostrar a NOSSA IDENTIDADE!

Eis nosso lema e ponto central do CineEsquemaNovo 2007: IDENTIFIQUE-SE!

Porque isso? Porque, em tempos de liberdade total por um lado e dependência das leis de incentivo por outro, é preciso refletir sobre o resultado do processo histórico do muitas vezes criticado cinema nacional. Para que a partir disso se entenda o sentido do que estamos assistindo e produzindo.

Por este motivo, o CineEsquemaNovo aposta neste ano na IDENTIDADE NO CINEMA BRASILEIRO. Uma identidade individual, autoral e livre de amarras e pré-conceitos; um cinema definido por gêneros, sejam eles ficção, documentário, animação, experimental. Um cinema sem fronteiras. Um cinema, como dizia Sganzerla, sem limites.

Tudo isso também está presente na Mostra Competitiva de Curtas e Médias-Metragens, com 50 trabalhos pinçados entre 759 inscritos para a seleção; na Mostra de Longas, com quatro filmes escolhidos entre nada menos que 44 candidatos. Na Mostra Sala de Aula com 2 produções oriundas de universidades, cursos e oficinas; nas Sessões da Meia-Noite, com realizações de pessoas ligadas à produção e júri do CEN 2007; nas oficinas de montagem e crítica cinematográfica; nos debates que se seguem à cada sessão.

Mas além de um amplo e pensado panorama da produção audiovisual brasileira contemporânea, o CEN 2007 legitima sua intenção este ano através da MOSTRA IDENTIFIQUE-SE! (MID), que traz filmes de todas as épocas para evidenciar que não é a tecnologia ou o patrocínio que faz de um filme uma obra relevante e inesquecível, mas talvez a disposição e a coragem de ousar trilhar novos caminhos.

Os oito longas e sete curtas da MID representam as quatro palavras que sempre guiam o CineEsquemaNovo – Criatividade, Inovação, Surpresa e Experimentação. E que valem-se destas virtudes (ao menos para nós) para transformarem-se em filmes atemporais. Como exemplo de “Iracema, uma Transa Amazônica”, de 1974, que mistura elementos de documentário e ficção de modo pioneiro, antes dessa prática ser um recurso quase despercebido, de tão usual, nas produções recentes do planeta.

((Assista a um trecho de “Iracema, uma Transa Amazônica”, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna)): [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=pq9qJk237dM]

São filmes que influenciaram muitas gerações e que continuam influenciando, na medida em que posicionam-se como uma resistência à produção pasteurizada, ausente de riscos, pronta para consumo. Não condenamos essa prática, mas aqui o ponto é outro!

Podemos ver “Crime Delicado”, de 2005, que é tão inovador quanto “O Despertar da Besta”, de 1969. O elo entre estes filmes é o mesmo, independente de temática ou período de produção: o cinema de uma personalidade que transcende a simples intenção de se fazer um filme “bom” – ao menos, na nossa opinião. Quem sabe…

A transcendência está também em “Mato Eles?”. A inovação de linguagem em “Ilha das Flores”. E a melhor utilização de todas as fórmulas de um cinema sempre ousado, o horror, em “Amor Só de Mãe”.

Ao buscar nesta mostra um recorte da história do cinema brasileiro que representa os conceitos do CEN, pudemos confirmar o imaginado e às vezes o esquecido: que esta identidade é múltipla, assim como nossa cultura. Com esta mostra, queremos estimular a reflexão sobre a nossa cinematografia (o que efetivamente acontecerá com o DEBATE IDENTIFIQUE-SE!) e valorizar filmes que sempre estiveram à nossa volta, nos provocando a querer mais: filmes corajosos, que dialogam com diferentes culturas, que incentivam o público e realizador a querer experimentar.

PROGRAMAÇÃO PARALELA CEN

Mostra Sala de Aula: mostra competitiva (júri popular) que exibiu 21 curtas-metragens produzidos em instituições de ensino de audiovisual. Participaram da Mostra Sala de Aula “A Estória da Figueira”, de Julia Zakia; “Balada de um Filme Pornográfico”, de Anita da Silveira; “Crisálidas”, de Fernando Mendes; “Inah”, de Alvaro Magalhães; “Machina Sapiens”, de Gabriel Klein; “Trem Fantasma”, de Sérgio Gomes; “Um Filme Chamado Sfincter”, de Zeca Brito; entre outros.

Mostra Identifique-se!: mostra que reuniu uma série de filmes que ousaram trilhar novos caminhos, em diferentes épocas: “O Despertar da Besta (Ritual dos Sádicos)”, de José Mojica Marins; “Amor só de Mãe”, de Dennison Ramalho; “Iracema, uma Transa Amazônica”, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna; “Couro de Gato”, de Joaquim Pedro de Andrade; “Todas as Mulheres do Mundo”, de Domingos de Oliveira; “O Reino Azul”, de Otto Guerra, José Maia, Lancast Mota e Eloar Guazzelli Filho; “O Veneno da Madrugada”, de Ruy Guerra; “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado; “Baile Perfumado”, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas; “Rota ABC”, de Francisco César Filho”; “Crime Delicado”, de Beto Brant; “Mato Eles?”, de Sérgio Bianchi; “Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci; “Copacabana Mon Amour”, de Rogério Sganzerla; e “Um Trailer Americano”, de José Eduardo Belmonte.

Mostra da Meia-Noite: mostra não-competitiva com exibição de 19 filmes (curtas e longas), entre eles “Deu pra ti anos 70”, de Nelson Nadotti e Giba Assis Brasil; “Olho por Olho” e “Bla Bla Bla…”, de Andrea Tonacci; “Senda de Vitórias”, de Stu Konigsberg”;  “Santa de Casa”, de Allan Sieber; “Asas, Sombras, Bicos e Unhas de Sonhos”, de Beto Brant; “Quintana Inventa o Mundo”, de Camila Gonzatto e Frederico Pinto; e “Diário do Viralata”, de Julio Andrade.

Assista ao teaser “Santa de Casa”, de Allan Sieber:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=knDb5T2nq-s]

Oficinas: Crítica Cinematográfica, ministrada por Ruy Gardnier; e Montagem Cinematográfica, ministrada por Cristina Amaral.

Pré-Estréia: “Baixio das Bestas”, longa-metragem de Cláudio Assis (PE).

PREMIADOS JÚRI OFICIAL [Andrea Tonacci (SP), Ruy Gardnier (RJ), Fábio Zimbres (RS), Luiz Roque (RS) e Marta Biavaschi (RS)]

Prêmio Especial do Júri
“Le Même Chapeau Que Toi” – “O Mesmo Chapéu Que o Teu”, de Heron Ferreira (Bélgica – captado em Câmera Fotográfica Digital – 14’50’’)
JUSTIFICATIVA JÚRI: Pelo conciso e delicado registro de um processo de cura, pelo formato do cine-diário como aspecto íntimo do fazer cinematográfico.

e também:

“Material Bruto”, de Ricardo Alves Jr. (MG – captado em Mni-DV e FotoDig – 18min). Assista aqui.
JUSTIFICATIVA JÚRI: “O sol há de brilhar mais uma vez”. Pela instauração de uma relação entre espectador e personagens que, em poucos e surpreendentes planos, coloca em xeque nossas percepções de normalidade.

Melhor Filme (Curtas e Médias)
“IGRREV”, de Carlosmagno Rodrigues (MG – captado em Mini-DV -15′ 37”)
JUSTIFICATIVA JÚRI: “Compre uma câmera”. Pela intervenção realizada em espaço do exercício do crer, pelo bombardeio perceptivo operado pela montagem e pela provocação cultural e política. Assista: [vimeo http://vimeo.com/19755331]

Experimentação Técnica em Direção
“Eletrodoméstica”, de Kleber Mendonça Filho (PE – captado em 35mm -22’38”)
JUSTIFICATIVA JÚRI: “A doce vida tecnológica”. Pela excelência na utilização da linguagem cinematográfica na construção do imaginário de uma personagem que faz delirar sua vida cotidiana.

Assista aqui: [vimeo http://vimeo.com/10022944]

Experimentação Técnica em Concepção Artística
“Éternau”, de Gustavo Jahn (RS – captado em 16mm – 21min).
JUSTIFICATIVA JÚRI: “Decifra-me ou te devoro”. Pelo convite à aventura, num caleidoscópio de referências iconográficas e cinematográficas, sobrepondo épocas e formas artísticas distintas.
[Leia aqui sobre o Coletivo Avalanche, grupo de artistas idealizado por Gustavo Jahn e Melissa Dullius e atualmente liderado por Virgínia Simone e Matheus Walter que guarda várias participações no CEN]

Experimentação Técnica em Desenho
“Eu Sou Como o Polvo”, de Sávio Leite (MG – captado em Mni-DV – 4min)
JUSTIFICATIVA JÚRI: Pela materialização da expressão da personalidade de Lourenço Mutarelli na composição de um auto-retrato.

Melhor Atuação
Otávio Terceiro, ator em “América – O Grande Acerto de Vespúcio”, de Rogério Sganzerla (SP – captado em Hi8 – 27min)
JUSTIFICATIVA JÚRI: “Maldito nevoeiro!”. Pelo poder da improvisação e do jogo na busca da construção de um personagem a partir de dados sumários de encenação.

Melhor Personagem Real
Ivanildo, o diretor retratado no filme “O Fazedor de Filmes”, de Arthur Lins e Ely Marques (PB – captado em Mini-DV – 11’20”)
JUSTIFICATIVA JÚRI: Pela energia cativante, pela entrega ao ofício do cinema e pela crença na filosofia do “errar até acertar”.

Prêmio da Nova Crítica - Melhor Longa Metragem (a cargo dos alunos da Oficina de Crítica Cinematográfica)
“Selva do Meu Desejo”, de Roberto Athayde (RJ – 135min – captado em Mini-DV e FotoDig)
JUSTIFICATIVA JÚRI: Pelo retrato etnográfico despretensioso do norte / nordeste e por extrapolar os limites do documentário, atribuindo a ele um tom ficcional, o filme revela, através de um olhar sem estereótipos, um Brasil real ao longo da transamazônica.

Troféu CineEsquemaNovo (a cargo da equipe do CEN)
- 1º Prêmio: CRISTINA AMARAL – coordenadora da Oficina de Montagem
JUSTIFICATIVA JÚRI: Por sua espontânea contribuição em todas as atividades do festival, pela presença nas mostras, pelas idéias e experiências que espalhou entre seus alunos e conosco, indo muito além de sua participação como ministrante da Oficina de Montagem.
- 2º Prêmio: A Todos os Diretores de outros Estados que se deslocaram para Porto Alegre para o CEN 2007
JUSTIFICATIVA JÚRI: Pela surpresa e motivação trazidas por suas presenças, apresentando e debatendo os filmes, discutindo todas as possibilidades do cinema e alimentando nossa discussão sobre novos rumos para a produção audiovisual brasileira.

PREMIADOS JÚRI POPULAR

Melhor Filme (Longas)
“Conceição – Autor Bom é Autor Morto”, de Daniel Caetano, André Sampaio, Guilherme Sarmiento, Samantha Ribeiro e Cynthia Sims (RJ – captado em 16mm e 35mm -  78min) – média 8,549

Assista ao trailer: [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ettjrWQ4zSs]

Melhor Filme (Curtas e Médias)
- 1º Lugar: “Um Fazedor de Filmes”, de Arthur Lins e Ely Marques (PB – captado em Mini-DV) – média 9,177
- 2º Lugar: “Eletrodoméstica”, de Kleber Mendonça Filho (PE, captado em 35mm- 22’38” – Captado em 35mm) – média 9,021

Mostra Sala de Aula
- 1º Lugar: “Um Filme Chamado Sfincter”, de Zeca Brito (RS – 15’30’’ – UNISINOS/RS -2006 / captado em Mini-DV  ) – média 9,04
- 2º Lugar: “Trem Fantasma”, de Sérgio Gomes (MG – 16 min – Uma Centro Universitário -UNA/MG  – 2006 / captado em Mini-DV) – média 8,96

Assista a “Um Filme Chamado Sfincter”, de Zeca Brito: [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=87zSVmK1IUg]

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