Realizadores premiados no CEN: Bruno Vianna

Formado em Cinema pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e mestre em mídias digitais pela New York University, o carioca Bruno Vianna dirigiu dois longas e cinco curtas-metragens que marcam uma trajetória como cineasta não apenas premiada em diversos festivais de cinema no Brasil e no exterior, mas também extremamente preocupada com novas formas de se pensar a produção, manipulação e circulação dos produtos audiovisuais na contemporaneidade, em meio a diferentes formatos, suportes e tecnologias.

Cafuné“, filme que dirigiu em 2006, foi o primeiro filme de longa-metragem brasileiro distribuído comercialmente a ter licença Creative Commons – ou seja, o filme está disponível para venda em DVD mas também pode ser baixado legalmente na internet.

Seus curtas passeiam por temas que vão desde a representação do universo da violência nas favelas do Rio de Janeiro (Geraldo Voador, 1994) – muito antes de o tema se tornar clichê no cinema nacional – até a facilidade de utilização ilegal de satélites militares norte-americanos, assunto do seu documentário mais recente (Satélite Bolinha, 2010).

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Deste ímpeto por experiências inovadoras surgiu “Ressaca“, grande vencedor do CineEsquemaNovo 2009, premiado nas categorias de Melhor Longa-metragem e Melhor Ator para João Pedro Zappa, pelo Júri de Premiação, além do Prêmio da Nova Crítica, concedido pelos participantes da Oficina de Crítica Cinematográfica e ainda o Melhor Longa pelo voto popular. O projeto foi pensado a partir da construção de uma narrativa combinável dividida em pequenos “blocos-sequências” manipulados ao vivo pelo próprio diretor numa espécie de performance em que o resultado seria uma experiência inédita a cada sessão.

“’Ressaca’, apesar de ter sido exibido em muitos festivais, era sempre convidado para uma mostra paralela, nunca para a competição. O único evento em que pudemos competir foi o CineEsquemaNovo. Por isso foi super importante ter recebido os prêmios que levamos em Porto Alegre”, comenta o diretor, ressaltando a importância dos prêmios conquistados na última edição do CEN.

Bruno Vianna com os prêmios que conquistou no CEN em 2009

Trata-se de um projeto que experimenta um mecanismo de edição que acontece ao vivo, durante a exibição do filme na sala de cinema, permitindo não só que a platéia visualize o processo de montagem mas também que a cada exibição obtenha-se um filme diferente. Chama a atenção, porém, que apesar de serem 130 seqüências pré-editadas e recombináveis, não é pura e simplesmente a montagem aleatória dessas seqüências que faz com que a cada exibição tenhamos um novo filme, pois bastaria para isso a utilização de um software que misturasse as cenas e as recombinasse em ordem diferente a cada sessão. O interessante é que o manipulador da plataforma utilizada para a montagem do filme conheça a fundo o material bruto e que tenha noção de várias possibilidades específicas de montagem. Isso é o que confere ao projeto de Ressaca um caráter de performance.

Exibição de “Ressaca” – Mostra Live Cinema 2009

“Ressaca” foi projetado para ser exibido sempre ao vivo com a presença do diretor (ou alguém que faça as vezes de “intérprete” da montagem em tempo real). Deste modo, assemelha-se bastante às apresentações de peças teatrais já que conta com a exposição do diretor perante a platéia e também de fatores como o erro ou o improviso. Um dos objetivos do projeto é que o diretor não manipule os trechos do filme isoladamente em uma sala de projeção ou através de um software como Final Cut, mas com um mecanismo que confira ao processo uma certa “transparência”, para que a platéia veja o processo de edição enquanto ele realmente é desencadeado. O intuito é que o diretor atue como um performer e que fatores externos afetem a maneira como ele acaba editando o filme (a reação da platéia, seu próprio humor, o tempo disponível para exibição, etc.).

A “Engrenagem” – interface utilizada para editar “Ressaca” ao vivo.

Uma interface tátil e circular com um metro de diâmetro, que permite manipular trechos do filme com os dedos, foi criada especialmente para este projeto em parceria com o Centro de Artes Hangar e a Universidade Pompeu Fabra, ambos na Espanha. Através deste painel, chamado de “Engrenagem” e posicionado ao lado da tela de projeção do cinema, o diretor pode executar o processo de edição em tempo real permitindo à platéia a visualização de alguns dispositivos circulares que contêm as curtas sequências do filme, e sua re-organização.

Este vídeo explica brevemente o funcionamento desta interface:

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Quando indagado sobre estratégias de distribuição do filme para além de suas exibições em salas de cinema, o diretor diz que “por não haver uma versão fechada do filme não existem planos de lançá-lo em DVD, já que não quero criar uma edição automática ou aleatória. O filme foi concebido para ser apresentado no formato ao vivo e não vejo ainda uma solução para fazer isso num DVD”.

Minuto CineEsquema (Bastidores do CEN 2009) – Bruno Vianna fala sobre “Ressaca”:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=FUNKumIKcu8]

O roteiro do longa foi escrito pelo próprio diretor numa tentativa de mostrar um período conturbado da história política e econômica do Brasil. Foi aí que surgiu toda a ideia de editar o filme de forma aleatória, já que Bruno pensava numa trama permeada por elipses e reviravoltas em situações que se conectavam de forma desordenada e não-linear. “Ressaca” conta parte da história de um adolescente que vive nos anos 80, período em que o país passou por uma sucessão de planos econômicos e sua família tenta superar suas próprias crises financeiras.

No site oficial de “Ressaca” estão disponíveis para download as 130 cenas-sequências que compõem o bruto pré-editado, além de trailers e outras informações sobre o projeto.

“Em geral, desde a experiência com o ‘Cafuné’, não acredito muito que o público tenha a disposição de remontar o filme. É um processo muito trabalhoso”, comenta o diretor, sobre sua idéia inicial de disponibilizar as sequências para download com a intenção de que qualquer pessoa possa montar sua própria versão de “Ressaca”. Ele ainda acrescenta que “todos os trechos do filme já estão disponíveis no site desde o lançamento, se alguém quiser fazê-lo, mas o máximo que aconteceu foi saber de pessoas que baixaram todas as 3 horas e meia e assistiram de forma aleatória”.

Atualmente, Bruno Vianna está cursando doutorado em comunicação audiovisual pela Universidade Autônoma de Barcelona e trabalha com suportes móveis e interativos. Assista a “Céu da Palavra”, um de seus experimentos de vídeo-arte mais recentes:

[vimeo http://www.vimeo.com/16793009]

Jamer G. Mello

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