Roger Lerina ministra o último seminário do CEN 2011

Roger Lerina, jornalista, colunista do jornal Zero Hora, crítico de cinema e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, foi o último integrante do júri a ministrar seminário no CEN 2011. Com o título “A cinefilia ainda existe?”, a fala de Lerina no sábado, dia 30, trouxe indagações sobre o que denominou ser uma crise no cinema, em que a noção de cinefilia estaria morrendo.

Para desenvolver este assunto, Lerina levantou a questão de que o cinema estaria perdendo público, bem como os festivais se esvaziando. Além disso, haveria uma  “infantilização” do público, o que deixaria a cinefilia então convalescente?

Durante seminário no CEN, Roger Lerina apresenta o livro “Cinefilia”, de Antoine de Baecque, recém-lançado no Brasil pela Cosac Naify

Para tratar de cinefilia, Roger Lerina lembrou a atmosfera da França pós-guerra durante as agitações culturais e a revista Cahiers du Cinéma. Cinefilia estaria ligada a uma “paixão expandida” , que envolveria a vivência do cinema muito além da projeção. Tal noção envolvia público, realizadores e críticos, e fazia parte de todo um contexto político de debates e confrontos. No auge da proliferação de cineclubes, o cinema era tema para se pensar a política e as relações sociais.

O cinema estaria então perdendo sua função social?, pergunta Lerina. Com o advento da internet e as novas formas de apreensão da informação, a relação do telespectador com a sala de cinema muda.  O palestrante então considera que há uma possível repotencialização do cinema, mas que isso pode acontecer em uma “clandestinidade”. O que acontece é que o conhecimento sobre cinema tem o perigo de se tornar mais “segmentado” e que, muitas vezes, segundo Lerina, há um desprezo ou um desdém com relação à produção para o “público” ou para o “mercado”.

Impressões sobre o CEN 2011

Sobre o CEN, Lerina classifica como inovador, instigante e não-convencional. Segundo ele, o festival levanta questionamentos e dá visibilidade para o que de mais inventivo e novo acontece na produção audiovisual. Nesse sentido, ele chama atenção para o que de vanguarda o festival reserva, divulga e propõe, servindo como estopim para novos debates.

Lerina lembra que uma das primeiras novidades do CEN para uma mostra que se apresenta como festival, uma mostra competitiva, foi a eliminação da questão da bitola, o que significou que o filme poderia ser produzido desde o tradicional 35mm, até um celular. “Ninguém produzia nisso, mas estava previsto que quem quisesse podia produzir até gravando em celular”, afirma.

Dentro da filosofia do festival de voltar o olhar para novos realizadores, dentro das novidades, o jornalista também destaca a visibilidade para os coletivos de realizadores que transitam entre o cinema e as artes visuais: “temos observado nessa produção independente de audiovisual atual que há uma contaminação mútua entre artes visuais e cinema”. As artes visuais e as artes plásticas há muito tempo se utilizam de linguagem do cinema, mas a novidade é que os realizadores estão incorporando procedimentos e estéticas que são originárias das artes visuais, enfatiza Lerina.

Ele afirma ainda que, apesar do cinema do Rio Grande do Sul ganhar ainda pouco destaque ou não ser muito comentado, o CEN acaba sendo um “cartão de visita” em outros festivais no Brasil. “Durante as minhas viagens pelos festivais, a primeira coisa que o pessoal me fala é: que legal que vocês têm esse festival lá em Porto Alegre”, comenta.

Para Lerina, estamos chegando em um momento de encruzilhada que vale a pena ser discutido. Existe uma leva de festivais que não se inclui na preocupação comercial, no circuito convencional de cinema. Na contrapartida disso, ele chama atenção para uma “guetização” dessas produções. Apesar desse cenário de filmes experimentais, de festivais como o CEN já possuírem “adeptos” e entusiasmados seguidores, Lerina ainda vê como um problema o diálogo com o “grande público”.

Bruno Maya

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