Stefanie Schulte Strathaus, curadora do Forum Expanded Berlin: “A ausência de definição e a limitação da linguagem me interessam”

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Stefanie Schulte Strathaus em Porto Alegre (foto Roberto Vinicius)

por Nicolas Sales

A elasticidade dos campos da arte e do cinema marcou a fala da alemã Stefanie Schulte Strathaus no Goethe-Institut Porto Alegre no último sábado, 15 de novembro, dentro da programação do CEN 2014. A curadora do Forum Expanded do Festival de Cinema de Berlim, que veio a POA para acompanhar o Cine Esquema Novo e apresentar a mostra por ela curada, Ways of Seeing, guiou sua palestra reconhecendo as barreiras teóricas entre arte e cinema, mas sem deixar de pontuar a importância do espectador na transformação destas diferenças em uma práxis audiovisual agregadora e convergente: “um filme só existe quando alguém o vê”.

Stefanie também é um dos nomes por trás do Arsenal, entidade responsável por levar ao Festival de Berlim as produções mais experimentais do cinema mundial. Neste sentido, longe de haver algo que defina um “filme experimental”, Stefanie lembra que a expressão serve como uma plataforma para a busca de obras que questionem as estruturas da indústria mainstream. Foi com este pensamento que, em 2006, o festival alemão passa a receber o Forum Expanded, seção da Berlinale que intensifica o tensionamento da linguagem cinematográfica em relação aos novos meios e abordagens de fruição da imagem – graças à inserção da vídeo-arte, instalações e performances em uma mesma programação cinematográfica.

Um dos exemplos trazidos pela curadora foi Gina Kim’s Video Diary, um auto-retrato em movimento no qual se assiste a artista sul-coreana em um trânsito nômade entre dois continentes, diversos idiomas e múltiplos meios de criação estética. Preocupada em não delinear sua obra dentro de categorias limitadoras, e por não entender exatamente sua obra como um “filme”, Gina Kim sugeriu à Berlinale que o espectador se sentisse livre para o abandono da obra, sem o compromisso tradicional de se ver um filme sentado em uma sala de cinema. São apontamentos como esse que permeiam o Forum Expanded, culminando em múltiplas inovações curatoriais, como a exibição de Bloco-Experiências in Cosmococa, do brasileiro Hélio Oiticica, em uma piscina de água salgada em Berlim no ano passado. As roupas de banho necessárias para adentrar a experiência estética servem de metáfora ao mergulho simbólico necessário quando se assiste a uma obra audiovisual deslocada do lugar esperado.

Para além de questões ontológicas que regem o trabalho curatorial para o Forum Expanded, Stefanie ressalta o papel do Arsenal na própria preservação da história do cinema autoral. Como exemplo, ela citou o fato de o Arsenal possuir diversas obras raras que, devido à necessidade de receber legendas em alemão “impressas” na própria película, terminaram por ser preservadas e se tornarem únicas – caso do o curta Por Primera Vez, do cubano Octavio Cortázar, realizado em 1977. Surge, então, uma tarefa arquivística e de preservação, levando em conta o papel social das instituições e seus acervos. A irrupção da Primavera Árabe foi outro episódio que pluralizou o Forum Expanded, uma vez que o cinema estrangeiro pôde servir de vetor para fazer do festival um espaço de diálogo político.

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“Zur Bauweise des Films bei Griffith” de Harun Farocki

Dentro do programa Ways of Seeing, seção da edição do Cine Esquema Novo de 2014 que traz a Porto Alegre obras que passaram pelo Forum Expanded, a curadora destaca o trabalho do alemão Harun Farocki, em exibição no Goethe-Institut Porto Alegre (Av. 24 de Outubro, 112). Desmembrando uma cena do filme Intolerância, dirigidido por Griffith em 1916, Farocki apresenta um estudo a partir da técnica tradicional de se filmar um diálogo em plano e contraplano – a qual Godard veemente criticava -, revelando a potência da câmera e da temporalidade em produzir espacialidade.

Se o contexto político e os interesses econômicos atravessam constantemente os festivais de cinema, e as fronteiras espaço/tempo passam a se diluir, o mesmo poderia ser dito a respeito do par arte/cinema. Afinal, teria o curador soberania interpretativa para dizer qual o meio ideal em que um filme é exibido, ou se ele é “cinema” ou “arte”? Existe um ponto específico onde a obra deixa de ser filme? É possível pensar a vídeo-arte como uma extensão da história do cinema? Stefanie não tem a pretensão de responder a essas perguntas. “A ausência de definição e a limitação da linguagem me interessam”, ela diz.

Determinar o que separa arte e cinema seria, portanto, um exercício tão simplório e anistórico quanto propor uma abolição daquilo que os difere. É nessa contradição que o curador deve atuar, procurando em seu trabalho a incessante desterritorialização desses campos. E foi com esta visão que o público presente pôde compreender melhor a relação entre Berlim e Porto Alegre quando o assunto é a expansão das fronteiras do cinema.

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