Terceiro seminário com artistas convidados do CEN-E recebe Sérgio Borges

8No domingo, 23 de junho, após sessão de exibição do longa-metragem “O Céu Sobre os Ombros” (2010), foi realizado no Cine Santander Cultural o terceiro seminário com os artistas convidados do Cine Esquema Novo Expandido. O realizador mineiro Sérgio Borges participou de uma conversa com o público em que falou sobre a sua carreira e suas preocupações com o cinema contemporâneo. O artista começou a fala expondo um pouco de sua trajetória no cinema. Contou sobre a produção de seu primeiro curta-metragem, em 1996, usando uma ilha de edição linear, e do segundo, de 1998, feito em 16mm e montado em moviola. Explicou também como a revolução digital do final dos anos 1990, com o surgimento de câmeras baratas e a possibilidade de usar um computador como ilha de edição, acabou facilitando sua carreira.

“É isso que eu uso: uma câmera e um computador pra editar, pois meu esquema de produção e realização não envolve grandes equipes, é um processo de realização que trata de um encontro, do meu encontro com algumas situações, com uma realidade”, comentou Borges, dizendo também que não se utiliza de narrativas clássicas, mas de um tipo específico de narrativa que tenta delinear os personagens.

Em seguida, Sérgio Borges leu um trecho de um livro do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, afirmando que as palavras deste cineasta acabam por sintetizar o que ele entende por cinema. Kiarostami diz que sua imaginação se mistura com a poesia escrita e dessa mistura surgem histórias. Para o autor, não há uma necessidade arbitrária de compreensão da poesia, pois a incompreensão faz parte do processo e do imaginário poético. Já no cinema a incompreensão não faz parte, de forma geral. Segundo Kiarostami, se quisermos que o cinema se torne uma arte maior, devemos estimular os espectadores a criar uma presença ativa frente aos filmes. Quando os filmes mostram demais, perdem seu efeito, reflete o cineasta iraniano. Para Sérgio Borges, esse trecho do livro reflete sua própria busca com o cinema, a de tentar expressar através da imagem algo que é maior que aquilo que está sendo mostrado.

O artista mineiro comentou também que suas referências audiovisuais da infância e da adolescência eram programas de TV, coisas simples e bastante explicativas. Porém, quando descobriu a existência de um cinema autoral, percebeu que havia outras possibilidades de dar sentido às imagens, muito mais próximas à poesia e ao pensamento.

Outro aspecto interessante de sua fala foi sobre sua experiência com o documentário. Sair com a câmera ao encontro do real, descobrir uma situação, ao contrário de criar uma situação para posteriormente filmá-la, como na ficção, foi fundamental para que ele criasse uma obra calcada na busca por situações simples do cotidiano.

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Uma experiência frustrante com atores e a ficção aconteceu com o curta “Silêncio” (2002). Ali, deparou-se com uma linguagem limitadora, sem potência, conta. Para o cineasta, a grande teatralização do cinema esvazia sua verdadeira potência: “sinto uma potência em outro tipo de entrega e só percebi isso mais claramente após essa experiência com ‘Silêncio’, pois isso aumentou meu interesse nos pequenos acontecimentos do cotidiano”.

Para Borges, trabalhar com equipe pequena facilita a possibilidade de chegar nessa potência das pequenas coisas. Em “O Céu Sobre os Ombros”, por exemplo, trabalhou com uma equipe muito pequena e isso fez com que se criasse uma relação de intimidade maior com os personagens.

Entre as questões levantadas pelo público estava a curiosidade sobre os bastidores de “O Céu Sobre os Ombros”. Borges explicou como foi feita a seleção dos três personagens do filme, como foi feito o corte de um quarto personagem que acabou não se encaixando na proposta do filme, e como ele criava situações esperando um tipo específico de resposta dos atores-personagens.

Perguntado sobre qual método de escolha e abordagens das pessoas que fizeram parte do filme, o cineasta contou que foi feita uma seleção de 130 perfis por uma pesquisadora de elencos. A partir destes 130 perfis foram escolhidas 30 pessoas, que concederam entrevistas ao diretor, que acabou escolhendo os 3 personagens do filme através de critérios como desenvoltura frente à câmera, despudor com a exibição do próprio corpo e um certo exotismo social. Para Sérgio Borges, a escolha através destes critérios fez com que se criasse uma comunhão dos espectadores em torno desses personagens, pessoas que enfrentam o peso do mundo.

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Aqueles que não assistiram aos filmes de Sérgio Borges nas duas sessões do dia 23 terão pelo menos mais uma oportunidade de assistir o longa-metragem “O Céu Sobre os Ombros”, que terá exibição na quarta-feira, dia 26/06, às 15h, no Santander Cultural. Veja na programação do festival.

Consulte aqui informações detalhadas sobre as obras de Sérgio Borges incluídas na programação do CEN-E, incluindo a videoinstalação “Hai Kai, indícios de vida sob a pressão do tempo” (2013), que terá abertura amanhã, dia 25 de junho, às 19h, na Galeria Ecarta, e ficará em exposição até o dia 30 de junho.

Texto por Gabriela Ramos de Almeida e Jamer G. Mello

Fotos por Roberto Vinicius

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