William Raban ministra Master Class no CEN-E e inaugura exposição

Raban1A Master Class “Materialidade do tempo: o suporte fílmico e a cidade”, ministrada pelo cineasta britânico William Raban, foi realizada na manhã do último sábado, dia 22 de junho, na Sala P. F. Gastal. O artista expôs, durante quase duas horas, alguns aspectos de sua obra, falando sobre suas práticas como cineasta, mostrando e comentando trechos de alguns de seus filmes que ilustram tais práticas.

O primeiro trecho exibido pelo cineasta foi também performático. Raban esticou um rolo de filme da cabine de projeção até a tela da sala do cinema, ficando em frente a ela e interrompendo a projeção. Com uma tesoura em mãos ele cortou o rolo de filme proferindo as palavras “Take Measure” no instante em que começava a projeção de seu filme, de mesmo nome, feito em 1973. O filme é uma espécie de experimento com as dimensões físicas das películas e do próprio espaço do cinema, tentando lidar com a fisicalidade e a performatividade do meio cinematográfico, uma preocupação central do filme estrutural e do cinema expandido dos anos 1970.

Em seguida exibiu trecho de “Fergus Walking”, de 1977, mostrando um interessante diagrama que desenvolveu para a montagem do filme (foto abaixo). Raban filmou um dançarino caminhando num lugar onde as portas e janelas de casas abandonadas foram cobertas com tijolos para prevenir que se tornassem ocupações. No diagrama ele mostra como efetuou cortes e inversões nos pedaços de filme, criando um ritmo fraturado do tempo que transforma os elementos políticos da obra (pichações nas paredes) em um poema concreto sobre as mudanças urbanas naquele local.

Assista aqui a um trecho de “Fergus Walking”.

Raban3

Um dos grandes impactos da zona portuária do leste de Londres, região urbana com bairros habitados por trabalhadores das docas, foi o projeto de revitalização mobilizado por investimento massivo de capital privado, impulsionado pelo governo conservador de Margareth Tatcher dos anos 1970 até hoje. É neste contexto que se desenvolve a obra de William Raban, criando uma série de filmes estruturais onde a importância do processo técnico e estrutural de cada um dos filmes tende a conjecturar efeitos nos conteúdos desses filmes. Em outras palavras, interessa ao cineasta criar situações fílmicas que desenvolvem conteúdos políticos sobre as alterações urbanas no leste de Londres, onde o cineasta mora atualmente e onde viveu nos últimos 40 anos.

A peça central deste projeto de revitalização imposto pelo governo britânico e pela iniciativa privada foi a construção da torre Canary Wharf, que viria a se tornar o novo centro de transações econômicas globais da Inglaterra e o prédio mais alto da Europa, durante muitos anos. Raban acompanha de perto a construção deste prédio e seus impactos na estrutura urbana local, criando uma série de filmes com esta temática.

Durante a Master Class, o cineasta explicou um pouco sobre os efeitos que tais transformações urbanas acarretaram nos bairros do leste de Londres e como acabou incorporando isso à sua obra. Em “Sundial”, filme de 1992, comissionado pelo Conselho de Arte de Londres e pela emissora de televisão BBC, Raban mostra 72 pequenas tomadas em diferentes situações e posições geográficas com a torre sempre no centro do plano. Trata-se de uma homenagem irônica do cineasta à torre Canary Wharf como monumento visível de uma imposição econômica da era Thatcher, em detrimento de uma subvalorização da região das docas.

Raban deu bastante ênfase em como suas técnicas de filmagem transformavam o conteúdo e os significados políticos de suas intenções com a imagem, o som e o movimento – seja no tom crítico de “A13” (1994), ao filmar os protestos da liga anti-nazista contra um candidato do British National Party (BNP), partido simpatizante do movimento neo-nazista na Inglaterra, ou na denúncia do racismo a partir dos confrontos entre brancos ingleses e negros de ascendência Bengali em “Island Race” (1996). Em “Island Race”, Raban cria o que chama de crônica do improviso e filma espontaneamente alguns eventos que se sucedem em uma rua do leste de Londres, como o funeral de um conhecido mafioso londrino chamado Ronnie Kray. O artista contou como modificou a velocidade do filme ao filmar um longo trecho em 20 quadros por segundo no lugar dos tradicionais 24 quadros. Também mencionou como tentou elaborar uma crônica destes diferentes eventos, fazendo o filme passar de um tom agressivo – onde mostra a intolerância nazi em uma pichação com a frase “mate um paquistanês” em um outdoor da Mercedes-Benz com a inscrição “Alívio rápido para o stress” – para um tom mais ameno, onde mostra a harmonia da natureza.

Raban2

Em seguida o cineasta exibiu trecho de “MM”, filme de 2002, e explicou como esta obra acaba se tornando um poema fílmico, menos na dimensão lírica e mais na dimensão estrutural, usando suas próprias imagens de arquivo num sentido métrico e ressonante, criando um mapa cinemático de Londres.

Por fim, William Raban mostrou trechos de duas das três obras que estão expostas no formato de videoinstalação na Usina do Gasômetro, e podem ser conferidas pelo público de Porto Alegre, explicitando algumas de suas técnicas. Em “About Now MMX” (2010) o artista conta como relacionou o uso de linhas geométricas na obra “New York Boogie Woogie” (1944), de Piet Mondrian, com sequências feitas a partir de duas janelas do alto do 21º andar de um prédio situado no leste de Londres. Raban explicou um pouco sobre seu interesse nos efeitos de imagem ampliada, com lente fotográfica e em time-lapse, do sol invadindo o espaço no sentido diagonal, em oposição aos movimentos verticais e horizontais da câmera.

Já “Time and the Wave”, de 2013, filme que Raban finalizou poucos dias antes de vir ao Brasil para participar do Cine Esquema Novo Expandido, foi sua primeira experiência exclusivamente em formato digital. O artista comentou que é praticamente impossível trabalhar com exibições que não sejam em formato digital atualmente na Inglaterra e isso tem consequências práticas interessantes como o baixo custo, a facilidade de finalização e a qualidade superior de imagem e som. Em tom irônico, Raban comentou que ainda não consegue ter um distanciamento crítico em relação a este filme, pois o finalizou há pouco tempo e o assistiu inúmeras vezes, por isso não tem a clara certeza de ser realmente um filme político. Desta forma terminou sua fala, pedindo ao público que assistisse à sua instalação dando um retorno sobre o teor político ali envolvido.

Entre as questões debatidas com o público, Raban falou de sua parceria com David Cunningham, músico que compõe as trilhas de alguns de seus filmes, e sobre como gostaria de ter filmado as recentes manifestações que estão acontecendo no Brasil. Disse, no entanto, que este seria um dever dos cineastas brasileiros e não dos estrangeiros que, como é o caso dele, desconhecem as questões políticas fundantes dos movimentos sociais brasileiros. Comentou também que se sentiu um tanto enojado após ter filmado o cortejo fúnebre de Margareth Tatcher e afirmou ainda que ama filmar as ruas e não entende como alguns cineastas podem ter preferência por filmar em estúdio. Para Raban, não há tempo melhor do que o presente e sua principal tarefa como cineasta e artista é estar em contato com o mundo e o tempo em que vivemos, mantendo uma constante busca por novos meios de relação e de diálogo entre tela e público.

_VS_4028Após a Master Class, William Raban participou do coquetel de abertura da exposição que ocupa as galerias Iberê Camargo e Lunara, na Usina do Gasômetro, com três videoinstalações (“About Now MMX”, “The Houseless Shadow” e “Time and the Wave” - leia mais sobre as obras aqui). As videoinstalações podem ser vistas até o dia 20/07.

A vinda de William Raban a Porto Alegre aconteceu em uma parceria entre o Cine Esquema Novo Expandido e a Prefeitura de Porto Alegre / Coordenação de Cinema, Video e Fotografia da Secretaria Municipal de Cultura, e em colaboração com a 9ª Bienal do Mercosul | Porto Alegre.

Veja aqui mais fotos da Master Class e também do evento de abertura das videoinstalações de William Raban.

Texto por Gabriela Ramos de Almeida e Jamer G. Mello

Fotos por Roberto Vinicius

1 comment for “William Raban ministra Master Class no CEN-E e inaugura exposição

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *