Artistas do CEN-E #4: Carlosmagno Rodrigues

No quarto post da série sobre os artistas convidados do Cine Esquema Novo Expandido temos o realizador mineiro Carlosmagno Rodrigues – autor de uma extensa obra em vídeo, que vem sendo produzida desde 1995. Formado em Cinema e Artes pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, é também uma presença constante no CEN, onde entre outros destaques foi premiado em 2007 com o filme IGRREV (melhor curta-metragem) e onde recebeu um prêmio pelo conjunto da obra (2009). Sua filmografia, com mais de 20 títulos, apresenta uma visão irônica e transgressora sobre aspectos políticos e privados, bem como um minucioso e particular estudo da linguagem cinematográfica e da composição visual.

Seus trabalhos serão exibidos no Cine Santander Cultural em sessões no dia 22 de junho, às 17h e 19h (Programas #1 e #2) e no dia 25, às 15h (Programa #2). Os espectadores da sessão das 19h, no dia 22, terão a oportunidade de assistir a um seminário proferido pelo autor, a partir das 20h30.

CarlosmagnoA obra de Carlosmagno transita na fronteira fugidia entre o privado e o público. São vídeos marcados por uma relação de emergência entre pai e filho, entre o íntimo e o coletivo, entre o documental e o ficcional, entre a política e a religião. O privado e o comum entram em jogo. Um jogo da necessidade da produção de imagens. Um jogo de invenção do possível, invenção de um universo privado, ao mesmo tempo íntimo e compartilhado. É o próprio mundo que se inventa ao ser filmado.

Em entrevista exclusiva ao CEN-E, o mineiro diz ter uma grande necessidade de produzir, uma necessidade que o acompanha desde muito jovem, usando qualquer tipo de linguagem (música, desenho, fotografia, cinema). “No curso de Belas Artes eu tive a oportunidade de conhecer melhor o cinema e então comecei a fazer filmes, ou melhor, vídeos, na época”, comenta sobre sua descoberta do universo do audiovisual. Para ele o trabalho do artista, principalmente o cineasta, é um trabalho incessante, uma eterna busca por aprimoramento.

Carlosmagno parece dotado de uma obsessão por filmar e por produzir obras que não se dissociem de sua vida. Sobre essa consciência de produção incessante, ele diz: “comecei a produzir meus filmes com intenção e preocupação artística, a partir da formação em artes plásticas, e o artista necessita de uma insistência, quase que no sentido religioso, pois existe uma necessidade de sacralizar o seu labor, ou seja, o desenvolvimento laboral do artista precisa ser quase que sacro”. Essa produção constante revela algumas recorrências que permitem identificar um projeto de cinema em curso, uma busca por pesquisar a linguagem cinematográfica e desconstruí-la em suas mínimas partes. Confira uma imagem do filme “Andrômeda – A menina que Fumava Sabão”:

Andrômeda, a menina que fumava sabão

Carlosmagno explica que desenvolve a sua obra a partir de uma série intimamente ligada ao que faz em sua vida, de modo que se sente um pouco recuado desta proposta frente ao aumento da auto-exposição nos últimos anos, potencializada sobretudo pelas redes sociais. No entanto, como muito bem nos lembra Cezar Migliorin em artigo dedicado à obra do cineasta, “os vídeos de Magno apresentam este privado explicitamente conectado com o público; o privado não tem em seus filmes nenhuma homogeneidade, é um espaço combinatório. Entretanto, não é um lugar qualquer. A câmera que freqüenta o big-brother e a agência do banco não freqüenta a minha casa.”

O filho do cineasta, além de ser presença constante em seus filmes, se autointitula performer, como afirma em um dos vídeos: “papai, liga a câmera que eu vou fazer performance”. Carlosmagno explica que o filho Bruno foi, durante uma boa época, uma espécie de parceiro de realização no audiovisual. Com o tempo, no entanto, Bruno foi crescendo e demonstrando interesses outros e conquistando autonomia. Parou, assim, de aparecer de forma tão recorrente nos filmes do pai como acontecia quando era criança. Na imagem abaixo, Bruno em cena no filme “Todo Punk é Católico”, exibido anteriormente no CEN e incluído nesta programação do CEN-E.

Todo punk é católico

Esses limites entre o íntimo e o público provocam uma relação de estranhamento com os filmes de Carlosmagno. Imagens tão íntimas e reais, e ao mesmo tempo tão poéticas e inventadas, um cotidiano extremamente verdadeiro e ao mesmo tempo feito de pedaços de ilusão e criação. Aqui, Bruno no filme “Sebastião – O homem que bebia querosene”, inédito em Porto Alegre e será exibido no CEN-E:

Sebastião

O contato de Carlosmagno Rodrigues com a arte não começou com o cinema, mas com o desenho e a pintura. Ele comenta que em seus filmes é nítida a inspiração das técnicas de pintura ao tratar as cores posteriormente com o uso de softwares. Para o artista, as “camadas de tinta que são reveladas várias vezes na tela, na pintura, deixam fragmentos de pigmento, sobras que acabam acrescentando, deixam de ser um ruído, um simples defeito e passam a contribuir esteticamente”. Sua busca ultrapassa o simples uso de filtros que simulam as imagens, e afirma tentar “diluir tanto a imagem de modo que as pessoas não consigam mais perceber minhas técnicas”.

O cineasta concilia a produção de filmes com o ofício de professor. No momento, tem participado com suas obras de diversos festivais no Brasil e exterior que têm exibido mostras retrospectivas dos seus filmes.

Confira o vídeo de introdução da participação de Carlosmagno Rodrigues no CEN-E:

Por Gabriela Ramos de Almeida e Jamer G. Mello

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