Saiba mais: CEN e Tatuí

Revista Tatuí é um projeto iniciado no Recife, e hoje espalhado pelo Brasil, dedicado à crítica de imersão: um experimento de crítica de arte que pretende não se vincular à concepção clássica do distanciamento crítico.

É graças a esta proposta da Tatuí que o Cine Esquema Novo convidou os editores da revista a viajarem até Porto Alegre, na semana de realização da última edição do CEN, em 2011, para vivenciar esta imersão dentro de um festival que já respirava ares de transformação: aquele era um momento de virada do CEN, num projeto que ambiciona tratar do tema “cinema” no significado mais amplo da palavra.

O resultado foi benéfico a todos, e com diferentes vias de escape. Além do vídeo Cruza, que registra esta interação entre festival, revista, pessoas e artistas, há a nova edição da Tatuí, que explora a relação cinema / artes visuais / crítica de arte, e naturalmente o novo momento do Cine Esquema Novo – o ponto de partida e questionamento que conseguiu envolver tantas pessoas.

Aqui, você lê o editorial da edição # 13 da Tatuí comentando a experiência. E aqui abaixo, o texto produzido pelo Cine Esquema Novo para abrir este número da revista: um dia de conversas ininterruptas entre os 5 sócios do festival foram gravadas, decupadas e editadas, transformando-se em uma obra coletiva que tanto escancara nossos desafios, como expõe o modo do festival permanecer vivo enquanto um projeto em movimento (e não, como mais um evento do calendário).

Um documento de cunho autoral e que completa a carta Um Novo Cine Esquema Novo, que recepciona os visitantes em nosso site. Boa leitura.

 

- * -


CINE ESQUEMA NOVO

- sensacional… Caos e Efeito.

- qual das obras?

- era uma cena dele com ele transando, tipo um artista se amando, sabe?

- mas como ele conseguiu fazer isso?

- uma montagem, sei lá… como a Globo faz as gêmeas, a Glória Pires ser duas, entendeu?

- ah, mas é uma coisa tecnológica.

- é, uma coisa tecnológica, ele pelado transando afu com ele mesmo… gente, era sensacional… tipo, ele pelado e ele também atrás, no cu, era bem explícito, o pau era dele…

- mas é uma ideia afudê.

- era sexo.

- pornográfico.

- pornográfico.

- um novo degrau do onanismo.

- tinha uma cama e não consegui entrar, porque eu sou meio claustrofóbica, um gavetão…

- o artista contemporâneo é bem isso… uma autoconfiança muito grande, uma autossuficiência…

- e agora essa cena super simbólica dela botando colírio… dessa visão que a gente tá tendo de abrir e discutir, de dialogar, sabe…?

- limpar o olho, né?

- isso é uma coisa tipo “não espere nada de mim: eu confio em você”. Eu acho que é uma promessa meio “não dá pra esperar, não dá pra acreditar em nenhuma promessa, não espere coisas de volta”.

- é que não é disso que vai vir o resultado, né?

- não é dessa confiança.

- tentando racionalizar a coisa, que não sei se tá no caminho certo, é o artista confiando no espectador pra que ele mesmo ache significado, não é o espectador que tem que confiar no artista…

- tipo… depende de você.

- “não confia em mim pra achar um significado pra isso, confia em ti”, sabe?

- e assim: “confia em ti, e pra interpretação que tu queira dar…”

- porque não existe uma interpretação.

- exatamente.

- seja lá que gaveta isso signifique ou represente.

- não que a gente esteja confiante no que tá propondo fazer. Mas se arriscando… a gente pode passar por um período de desconfiança.

- sem dúvida. Mas é diferente falar assim de desconfiança, ou falar “eu não sou confiável”, “talvez eu não seja de confiança”.

- questione tudo, desconfie de tudo…

- e talvez isso que a gente fala de Cine Esquema Novo… as pessoas desconfiem.

- como assim?

- não tô falando que elas desconfiam do Cine Esquema Novo ser sério ou não…

- mas a cena agora era de um cara que vinha e estuprava a cabeça dela.

- assoprava.

- eu acho que esse filme fala muito do momento, sabe? Porto Alegre, as pessoas reunidas…

- e esse áudio, é da Pina Bausch também?

- tá com toda a cara.

- mas o filme todo parece a arte dizendo um pouco isso.

- eu acho que é uma metáfora bem evidente essa do olhar deles, cada um pra um ângulo. Pra onde ele tá olhando e pra onde ela tá olhando. Os dois estão vivendo a mesma cosia, mas não estão olhando pro mesmo lugar.

- na hora que eles quase formam um rosto só, né?

- é… ou talvez seja como se a gente tivesse falando: “eu confio em você, mas eu não sou de confiança”. Talvez seja ainda uma coisa da gente estar descobrindo o que é, sabe? O que a gente tá fazendo, afinal? Tô super abrindo o questionamento…

- acredito no que eu tô fazendo, mas não sei no que isso vai dar. É por aí?

- tô abrindo as possibilidades de questionamento que todos nós estamos tendo e que eles devem ter percebido… eles viram a gente debatendo essas coisas. É um caminho que a gente tá descobrindo, de como integrar, de como fazer dialogar cinema e arte.

- as pessoas percebiam isso no Cine Esquema Novo, mas talvez não estivesse claro pra elas. É mais claro pras artes visuais do que pro cinema. A gente tá descobrindo como tratar isso também a partir do cinema, pra que cada vez que se fale isso não seja…

- pra que o falar disso seja mais presente.

- é, mais presente. Não no sentido de que seja nova essa discussão, mas ainda se discute isso pelo lado do cinema como se estivessem discutindo a invenção da roda, sabe? Há décadas…

- isso é arte, isso não é arte, isso é cinema, não é cinema…? Como se dá essa cruza…?

- acho que temos que nos voltar pra palavra “relação”. No caso específico do Cruza foi isso que se deu: a gente chamou eles pra irem lá… e é uma coisa totalmente pessoal.

- porque não é confiança no que a pessoa faz, e sim naquela pessoa, no que a pessoa é. É menos o que ela faz e mais o que ela é.

- é, isso é bem mais essencial.

- a gente tava falando antes de umas outras coisas. Da confiança como ponto de partida.

- porque a obra de arte dá para o espectador a confiança pra ele desconfiar.

- e eu acho que no cinema isso se perdeu um pouco. O cinema não dá mais essa abertura pra pessoa desconfiar.

- a sensação de qualquer tipo de troca de confiança?

- a sensação de que tu dá tudo mastigado pras pessoas…

- na hora que o Cine Esquema Novo faz uma sessão que o cara não sabe o que vai ver, dependendo, ele vai lá e vai achar chato: ele quer confiar cem por cento. Ele quer segurança.

- é, segurança.

- “Cine Esquema Novo 2013: pode confiar”.

- acho que quando perceberam que o cinema gerava muita força política, simbólica, financeira, então começam a minimizar os riscos que aquilo poderia ter pra transformar. Deixou de ser o que deveria ser ou, enfim, se transformou numa coisa que não era o que era.

- este papo do que é e o que não é me remete àquele cinema inicial, uma junção das outras artes, e ao mesmo tempo uma coisa discriminada por elas… o irmão bastardo das artes, pois não passava de pura trucagem… e as pessoas iam pro cinema num parque de diversões, numa feira… não tinham uma linguagem estabelecida para quebrar o código do que estavam vendo.

- parece que agora, quando o cinema extrapola, ele é menos aceito do que quando uma obra de arte extrapola. Ou as pessoas se sentem menos à vontade de questionar.

- porque “eu não entender” é excelente, né?

- exato.

- é arte e mais várias outras coisas.

- e tipo, afirmações sobre algo, o questionamento, também são excelentes.

- e essa frase “talvez eu não seja de confiança” tá aí pra isso… pra dizer assim: “por favor pergunte, pergunte, não se acomode, questione, não se acomode… não aceite…”

- na real, tu precisa da dúvida. Ela é um pressuposto.

- o papel do instigador é importante, “eu não vou te dar nenhuma certeza”.

- mas eu acho que as imagens… o audiovisual já tá tão presente na vida das pessoas que elas já se assumem conhecedoras e entendidas da linguagem.

- sim.

- por isso que elas vão ao cinema com essa certeza, e isso não é bom pra o que a gente tá discutindo aqui. Aí elas vão numa bienal e não se sentem representadas e identificadas porque bate a preguiça. E nós, no meio?

- mas eu vou te dizer que dez anos atrás eu ouvia muito mais “isso não é arte” do que escuto hoje. Outro dia saí com a minha tia do museu e ela saiu falando “ah, que diferente esse filme”, “ah, que legal esse outro”. Ela não disse “isso não é”, sabe?

- mas aí tem a ver com o que se entende como arte contemporânea hoje. Muita gente liga as artes visuais imediatamente à arte feita agora, então a pessoa consegue aceitar. A tua tia consegue chegar lá e dizer “tá, isso é arte contemporânea”, ou “isso não é cinema, é outra coisa”.

- eu acho que o Cine Esquema Novo vem trabalhando uma proposta um pouquinho mais ampla do que isso. Mas que pelo formato de festival de cinema acabou ficando trancada em algo específico demais.

- é por isso que as coisas vão mudar.

- ou a gente acha que vai. Não é uma coisa do dia pra noite.

- é uma questão contextual, não é uma questão de formato.

- mas será que a gente não estaria intervindo na criação, na obra, no momento que a gente vê um filme e sugere que ele aconteça de um jeito diferente do imaginado pelo autor dentro do Cine Esquema Novo?

- definitivamente. E qual é o problema da gente sugerir? A coisa tá viva, não tá morta.

- sempre vai ser assim quando o artista estiver sujeito a uma curadoria. É uma cruza…

- acontece que a leitura que um cara faz é uma coisa, mas o cara fazer parte da construção disso é outra. Tem artistas que não sujeitam a obra deles a isso.

- mas daí o cara vai dizer e pronto.

- a gente vai pra sombra ou vai ficar aqui nesse sol?

- não tem sol…

 

Alisson Avila
Gustavo Spolidoro
Jaqueline Beltrame
Morgana Rissinger
Ramiro Azevedo

Porto Alegre, fevereiro de 2012. 

 

 

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