MOSTRA ARTISTA CONVIDADA – LETICIA RAMOS

Arqueologia do sensível

Potências, movimentos, vestígios, paisagens remotas, futuros arcaicos — um acontecimento audiovisual que não é apenas o resultado de uma observação, mas a consequência de um experimento; uma aparição produzida entre engenho, matéria, ficção e fenômeno. Há, aqui, uma compreensão da imagem que ultrapassa o campo do registro: para além da captura de um mundo previamente dado, ela se afirma como operação sensível, como experiência material e imaginativa — como forma de fazer emergir aquilo que, de outro modo, permaneceria apenas latente. Imagens-experimento que, menos do que documentar fenômenos, criam as condições para que algo — uma miragem, uma distância, uma sobrevivência, um rastro, uma iminência — possa surgir. Imagens-aparição, formatadas por aparatos do sensível, nas quais filmes, instalações e procedimentos analógicos funcionam como máquinas de intensificação – como dispositivos capazes de tornar perceptível o que não se entrega espontaneamente ao olhar. Imagens-especulação, nas quais o retorno a procedimentos ligados à história da fotografia, ao cinema experimental, ao laboratório, à óptica e à mecânica da imagem responde à busca por forças ainda não esgotadas — sobrevivências técnicas, materiais e imaginárias que continuam pulsando no presente. Imagens-obra que parecem pertencer a uma temporalidade deslocada; que não se organizam de modo linear, nem se deixam reduzir a uma cronologia da técnica ou da paisagem e, ao contrário, habitam uma espécie de kairotopia — um espaço-tempo intensivo em que passado e futuro se dobram sobre o presente da aparição. Imagens-refração: délibábs produzidos por condições reais — luz, calor, distância, atmosfera —, onde o sensível é falso e verdadeiro ao mesmo tempo; onde a projeção, mesmo sem nunca corresponder inteiramente ao objeto que aparenta mostrar, revela concretamente a instabilidade do visível. O que temos aqui são inscrições visuais que se oferecem menos como representação do que como sinônimo de sensível: um sensível que excede aquilo que se vê e emerge como algo que afeta, reorganiza a percepção e nos coloca diante de uma zona instável entre o visível e o (ainda) não-visível. É justamente nessa zona — onde a visualidade se apresenta como aparição, vestígio e retorno — que a imagem deixa de pertencer à simples sucessão dos acontecimentos e passa a instaurar um tempo próprio; um momento de revelação no qual aquilo que permanecia latente retorna transformado, reativado por novos dispositivos, novos contextos e novas perguntas; um intervalo no qual arte, ciência, ficção, memória e fenômeno natural deixam de ser categorias separadas para compor uma mesma experiência sensível. Estamos diante de projeções que não mentem, mas que também não confirmam; que deslocam, que produzem manifestações pertencentes menos ao campo da evidência do que ao campo da reverberação; fulgurações que partem de fenômenos geológicos, climáticos, ópticos ou históricos e os atravessam por narrativas ficcionais e dispositivos experimentais, onde o mundo natural não surge como paisagem exterior, e sim como força imaginante. O que se constrói aqui, em essência, é uma poética do intervalo, na qual o sensível parece sempre vir de outro lugar: de uma expedição, de uma hipótese, de um arquivo, de uma ficção geológica, de um porvir ancestral – lugar este que, longe de ser exterior ao presente, retorna como intensidade, como sobrevivência, como aparição sensível. A obra, no fim, desloca a explicação do mundo para a criação de dispositivos capazes de nos fazer perceber sua instabilidade — menos janela para o real do que máquina de produzir limiares. Entre o documento e a ficção, entre o fenômeno e a forma, entre o experimento e a miragem, ver nunca é apenas reconhecer; é atravessar uma zona de incerteza; é entrar em contato com aquilo que sobrevive, reaparece, refrata, vibra e se transforma no próprio ato de tornar-se acontecimento visual. Tocada pela instabilidade do visível, a percepção não produz imagens sobre fenômenos, produz fenômenos de imagem: arqueologia do sensível.


André Severo

25/06, às 19h, na Cinemateca Capitólio

PERFORMANCE LETICIA RAMOS + ROSSANO SNEL – FILMES E MÚSICA

Trata-se de um programa de filmes realizados ao longo dos últimos dez anos de produção da artista. Os filmes, projetados em sequência, serão musicados ao vivo, em concerto, sob a regência do compositor brasileiro Rossano Snel. Fazem parte da exibição especial Bloco Testemunho, VOSTOK, Grão, The Blue Night e Dropspike.

Para a apresentação, as partituras musicais das trilhas sonoras e ruídos dos filmes foram reescritas, assim como partituras visuais para a sincronização entre música e filme. A parceria com o compositor brasileiro radicado em Berlim, Rossano Snel, iniciou-se em 2013, quando apresentaram Ensaio para gravação de orquestra no PIVÔ, onde executaram a trilha sonora original do futuro filme VOSTOK junto aos cenários construídos para o filme. Essa exibição resultou na gravação de um LP com o concerto completo ao vivo acompanhado das partituras da trilha sonora. Em 2015, trouxeram VOSTOK Cine Performance ao Teatro Sesc Pompéia, desta vez com projeção em 35mm do filme VOSTOK com a participação de uma orquestra e com trilha sonora e foley inteiramente realizados ao vivo. Em maio de 2024, a artista apresentou Leticia Ramos + Rossano Snel – filmes ao vivo com o ensemble português Supernova, exibindo sete filmes de dez anos de produção da artista.

Para o Cine Esquema Novo, Rossano Snel e Letícia Ramos trazem uma nova seleção de filmes, desta vez com a participação do artista de foley Marcelo Armani.

Os filmes de Letícia Ramos utilizam maquetes e miniaturas para simular paisagens ficcionais que se situam entre o passado e o futuro. A construção sonora dessas paisagens é fundamental para a narrativa e torna o processo criativo do som uma parte importante de seu processo de produção e de sua poética, frequentemente constituindo uma nova obra. As apresentações filme-concerto são momentos importantes e raros para visualizar essa construção. 

Letícia Ramos – Filmes
Rossano Snel – Composição e direção musical

 

Vagner Cunha – Violino

Nadabe Tomás – Trompa

Samuel Oliveira – Clarinete e clarone

Nina Nicolaiewsky – Sintetizador

Pablo Schinke – Violoncelo

Douglas Gutjahr – Percussão

Diego Silveira – Percussão

Marcelo Armani – Sintetizador e foley

 

EQUIPE TÉCNICA

Atmosfera Produtora/Alexandre Ostrovski – Técnico de som

Andres Costa – Projecionista

 

27/06, às 19h, na Cinemateca Capitólio

SESSÃO DE FILMES SEGUIDA DE DEBATE COM LETICIA RAMOS E ROSSANO SNEL

ACESSE O CADERNO DE ARTISTA DE LETICIA RAMOS

Mostra Artista Convidada Leticia Ramos

Mostra Artista Convidada Leticia Ramos

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