O Tempo das Imagens
Desde sua primeira edição, em 2003, o Cine Esquema Novo – Arte Audiovisual Brasileira se dedica a observar as transformações do audiovisual contemporâneo a partir de suas margens, de seus cruzamentos e de suas constantes reinvenções. Ao longo de mais de duas décadas, o festival consolidou-se como um espaço dedicado à descoberta de novos artistas, à circulação de obras inovadoras e à reflexão sobre as múltiplas formas de expressão que compõem o campo audiovisual.
É justamente essa longevidade que nos permite constatar que o Cine Esquema Novo se afirma como um festival que, muito mais do que selecionar e exibir filmes, acompanha trajetórias artísticas. A Mostra Competitiva Brasil e a Mostra Outros Esquemas são reflexos desta proposta, que se expande para toda sua programação.
A artista convidada desta 16ª edição, Leticia Ramos, simboliza essa relação com o tempo. Sua primeira participação no festival aconteceu em 2004, ainda durante sua formação universitária, com uma obra realizada nesse contexto de “trabalho de faculdade”. Desde então, acompanhamos o desenvolvimento de uma das produções artísticas mais singulares do país, marcada pela investigação das imagens, dos dispositivos ópticos, da fotografia, do cinema e das relações entre arte, ciência e tecnologia. Seu retorno ao festival como artista convidada reafirma uma convicção que orienta nosso trabalho: a importância de criar vínculos com artistas cujas pesquisas continuam expandindo os limites do audiovisual.
A Mostra Especial Petrobras dedicada a Kleber Mendonça Filho, com curadoria de Jaqueline Beltrame e Ramiro Azevedo, oferece outro exemplo dessa perspectiva. Na primeira edição do Cine Esquema Novo, em 2003, foi exibido “A Menina do Algodão”, curta codirigido pelo realizador. Nos anos seguintes, o festival recebeu obras fundamentais de sua filmografia inicial, como “Vinil Verde” e “Eletrodoméstica”, que retornam agora nesta retrospectiva ao lado de seu primeiro longa-metragem, o documentário “Crítico”. Ao revisitar esse percurso, acompanhamos também a trajetória de um cineasta que alcançou reconhecimento internacional, teve obras premiadas nos principais festivais do mundo e, em 2026, foi consagrado com o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes, pelo filme “O Agente Secreto”. Histórias como essa reforçam o papel, não só do Cine Esquema Novo, mas dos festivais como espaços de descoberta, acompanhamento e valorização de artistas em diferentes momentos de suas carreiras.
Essa atenção aos processos criativos se manifesta também em iniciativas desenvolvidas pelo festival ao longo dos últimos anos. Criados em 2021, os Cadernos de Artista expandiram a experiência da Mostra Competitiva Brasil ao convidar o público a mergulhar nos universos criativos dos realizadores selecionados. Construídos em parceria com os artistas, esses espaços revelam referências, anotações, materiais de pesquisa, roteiros, imagens, textos, músicas e percursos de criação que normalmente permanecem fora do alcance do público. Mais do que apresentar as obras finalizadas, os Cadernos de Artista nos conduzem pelos caminhos, dúvidas e descobertas que fazem parte do fazer artístico.
A vocação do Cine Esquema Novo para o acompanhamento de processos artísticos estende-se também ao campo das ideias. Em sua quarta edição, o Seminário Pensar a Imagem propõe uma reflexão sobre as imagens como arquivos vivos e reafirma o compromisso do festival com a criação de espaços dedicados à reflexão crítica e ao intercâmbio de experiências entre artistas, curadores, pesquisadores e estudantes. Ao reunir diferentes perspectivas em torno de questões centrais para o audiovisual contemporâneo, o seminário fortalece uma dimensão fundamental do projeto: a compreensão de que as obras não existem isoladamente, mas integram redes de referências, debates e experiências.
Essa atenção às diferentes temporalidades do audiovisual também se manifesta na Mostra de Acervo, criada em 2022 a partir do reconhecimento de que a história do Cine Esquema Novo não se constrói apenas por meio de suas edições anuais, mas também pelas obras que permaneceram em seu percurso. Ao longo de mais de duas décadas, o festival reuniu um expressivo conjunto de trabalhos que documentam parte importante da produção audiovisual contemporânea voltada à experimentação e ao diálogo entre linguagens. Em parceria com instituições que preservam acervos fundamentais para as artes visuais e o audiovisual no Rio Grande do Sul (MARGS -Museu de Arte do RS, MAC RS – Museu de Arte Contemporânea do RS e Fundação Vera Chaves Barcellos), a mostra, com curadoria de Roger Lerina, promove o reencontro com obras que seguem provocando questões, sugerindo novas leituras e dialogando com o presente. Mais do que revisitar o passado, trata-se de reconhecer que certas imagens continuam vivas, capazes de estabelecer conexões entre diferentes contextos, gerações e modos de criação.
Se a Mostra de Acervo ativa a memória, o Programa Novos Talentos, a Mostra Audiovisual em Curso e a oficina Câmera Causa apontam para o futuro. Em sua terceira edição, o Programa Novos Talentos foi criado para ampliar as possibilidades de formação e inserção de novos profissionais no setor cultural, fortalecendo redes, promovendo trocas e contribuindo para o desenvolvimento do ecossistema audiovisual local. A Mostra Audiovisual em Curso compartilha desse mesmo horizonte ao oferecer um espaço de formação prática para novos curadores, aproximando-os dos processos de seleção, análise e construção de programas audiovisuais. Já a oficina Câmera Causa investe na democratização dos meios de produção ao estimular a realização audiovisual por meio de dispositivos móveis. Complementando esse movimento de expansão, a Mostra Itinerante leva parte da programação do festival para Bagé, Pelotas, Santa Maria e Caxias do Sul, ampliando a circulação das obras e fortalecendo o diálogo com diferentes territórios do Rio Grande do Sul. A Mostra Acessível reafirma o compromisso do festival com a inclusão ao apresentar parte da programação da Mostra Competitiva Brasil com recursos de Libras, legendagem descritiva e audiodescrição, ampliando as possibilidades de acesso e fruição das obras. Juntas, essas iniciativas estendem o alcance do festival para além de seu período e de seu território de realização, contribuindo para a formação de novas gerações de profissionais, artistas, curadores e públicos.
Chegando à sua 16ª edição, o Cine Esquema Novo segue movido pelo desejo de conectar artistas, obras, ideias e públicos. Um festival que entende o audiovisual não como um território delimitado, mas como um campo aberto à experimentação, à pesquisa e à invenção. Um espaço para descobrir novos trabalhos, revisitar trajetórias, ativar memórias e imaginar, coletivamente, novas maneiras de olhar para o presente.
Jaqueline Beltrame e Ramiro Azevedo
Organizadores
