CADERNOS DE ARTISTA

Cabeça, Ombro, Joelho e Pé
2026, 10min, SP

27/06 | 15h

Cinemateca Capitólio

Cabeça, Ombro, Joelho e Pé

CABEÇA, OMBRO, JOELHO E PÉ, flerta com realidades artificiais e futuros possíveis ao acompanhar a trajetória de Sara, em sua tentativa de existir em um ambiente onde tecnologias emergentes e velhas formas de opressão se entrelaçam. Em meio a espaços vigiados e imagens próximas da videoarte, ela busca fissuras por onde ainda seja possível imaginar liberdade.

Ficha técnica

Ficha técnica:
Direção: Vane Vane
Roteiro: Vane Vane
Produção: Lucas Pipa
Produção Executiva: Lucas Pipa
Direção de Fotografia: Rogério Afonso Oliveira
Direção de Arte: Jaqueline Chiesa
Som: Lucca Baraldi
Montagem: Isadora Toti
Elenco: Julianna Gerais, Gilda Nomacce, Maurice Plas, Robert Plas, Talles Pariz

Festivais, Mostras e Prêmios

11º Amazônia FiDOC

15º Festival de Cinema da Fronteira

BIOGRAFIA DE ARTISTA

Vanessa Ferreira é diretora, roteirista e produtora audiovisual. Mestranda em Cinema Documentário pela Universitat Pompeu Fabra (Barcelona) e graduada em Cinema e em Ciências Sociais, desenvolveu pesquisas sobre a representação de figuras políticas no cinema e atuou na produção de exposições de arte em museus do estado de São Paulo. Seu trabalho transita entre o cinema e as artes visuais. Em sua filmografia, destacam-se os curtas Fulano de Tal (2024), selecionado para a 28ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, e Cabeça, Ombro, Joelho e Pé (2026), vencedor do prêmio de Melhor Curta-Metragem do Júri Popular no Festival Internacional de Cinema da Fronteira.

 

FILMOGRAFIA
  • Cabeça, Ombro, Joelho e Pé (2026, 8″)
  • Fulano de Tal (2024, 12″40′)
  • Natureza Morta (12″, 2023)
CONCEITO DE DIREÇÃO E ROTEIRO COMPLETO

Cabeça, ombro, joelho e pé é um curta-metragem ficcional colorido, de até 15 minutos. O gênero escolhido foi a ficção científica aliada ao drama, com um tom melancólico e satírico, ao mesmo tempo.

O filme se passa do ponto de vista de Sara, a personagem principal da história.A mulher retrata o apagamento da subjetividade feminina em função do seu significado social, ou seja: vista pelo poder enquanto alguém que só tem utilidade quando serve – como empregada de uma casa ou pessoa para gerar filhos –, o filme reflete sobre sua condição. Assim como ela, o filho que gera na barriga, dispensado após alternativa vinda de útero artificial, é parte de um dos aspectos centrais discutidos pelo filme, a saber, o conceito de objetificação.

A personagem incorpora a melancolia e a falta de sentido de sua condição, que a leva a um certo embotamento de sua subjetividade. Impedida de se expressar tanto por ser entendida enquanto objeto, quanto pelo momento histórico de fragmentação das relações, Sara é vista em tela como alguém que deseja desaparecer, fruto da necessidade, forjada pelo coletivo, de não chamar atenção para si enquanto sujeito. Assim, os enquadramentos são distantes ou em pedaços de seu corpo. Sara não forma muito bem um todo coeso. O foco em seu corpo fragmentado é também porque Sara representa o elemento carne/natureza em tela.

Outra temática abordada pelo filme é a da fantasmagoria e alienação produzida pelos inventos tecnológicos, afetando nossas subjetividades. Sara lida com um mundo sem corpo, onde seus interlocutores muitas vezes nem presentes estão. Ainda, é vigiada por uma Máquina que a controla, mas tam-
bém a consola. A Máquina vai adentrando a subjetividade de Sara estando presente em momentos onde ela não pode contar com ninguém, agindo como sua amiga confidente. Nesse intrincado lugar onde Máquina é opressão e afago, é que se localiza nossa personagem. Assim, a fantasmagoria se materializa em tela com elementos de projeção e vídeos pré-fabricados em estúdio que, com o auxílio da pós produção para as inserções tecnológicas no filme, serão os elementos em diálogo com Sara.

Os humanos do futuro se especializaram em seu dandismo, mas sem superar as desi gualdades sociais. Assim é como se apresenta o cenário onde Sara trabalha, a casa de seus patrões. Representantes daqueles que alcançaram o sonho financeiro burguês, mas que não superam o vazio primordial e buscam em um bebê a completude que almejam. Contudo, a maneira para isso acontecer deve ser a com menor repercussão em suas psiques possível. 

No dandismo do qual são forjados, não há espaço para o sofrimento da vida. Assim, o útero artificial chega como uma solução perfeita para aqueles que desejam possuir (nesse caso, um filho), sem lidar com a mulher que gera a vida. É com essa invenção que eles se realizam, e rapidamente o frágil acordo entre eles acaba. A relação reflete o aspecto social onde homens exploram as mulheres em suas capacidades, mas visando, se possível, a sua superação histórica.

Tudo isso se passa em uma São Paulo que mantêm os abismos sociais entre os seres, visto que o futuro avançou em determinado sentido (o tecnológico) mas não no ético, portanto as relações de extrema desigualdade permanecem. A São Paulo retratada no curta é fruto de um avanço sobre a natureza, reflete um céu alaranjado e dominado pelo excesso (de pessoas, de poluição, de prédios). A tríade que será relacionada é a da vida, tecnologia e cidade. De maneira esquemática, Sara se aproxima da vida, porém de maneira embotada.

NOTAS DE PROCESSO E REFERÊNCIAS

pra que servem os braços?
pra que servem as mãos?
CYBERPUNK

me comovo com quase tudo
Me emociona o céu
que vejo entre dois apartamentos.
Me emocionam as árvores
que vejo por meio das grades entre dois apartamentos
com um matinho que cresce na calçada
Tenho falado baixo pro bebê não acordar e me sinto infeliz,

Para quem você trabalha?
você
trabalha para quem ?

o doutor é uma pessoa
eu sou gente
tenho que falar que fizeram uma proposta pelo bebe dela
me explodiram em mil pedacos

eu era mais alguma coisa ali. me foi oferecido um spa relaxante na frente do mar após essa
noticia pra eu poder relaxar. eu andei até a beira do mar
o mar nao era comovente.
e eu me vi só.

nao existe uma barriga.

OBRAS DE REFERÊNCIA

AI
2019, 5min, Argentina / Austria

de Lucrecia Martel

Justificativa

A peça composta por Lucrecia Martel faz perguntas ao material de arquivo e o recompõe de maneiras que enxergamos, junto com a autora, uma nova possibilidade de leitura. Nos pareceu interessante como ela interage com o aspecto do material (um vídeo) trazendo o aspecto tecnológico para frente da tela, com os pixels no rosto, deixando o olho – a janela da humanidade – desvelada e central.

Bye Bye (Clipe de Música)
2024, 4min36seg, EUA

de Kim Gordon

Justificativa

A música de Kim Gordon lista muitos objetos cotidianos, igualando todos eles sem hierarquizar. Somos, musicalmente, soterrados pelo excesso capitalista. Uma pessoa contratada para estar em uma casa cuidando de objetos e, nessa relação, sendo tratada como um, pareceu ter relação direta com essa música. Ali, Sara era tratada como mais um daqueles objetos dos patrões. Também, em meio a tanto, ao excesso de coisas, tudo é irrelevante e é possível (e muitas desejável) sumir. A música foi inspiração para a listagem de objetos do inicio do filme.

L’argent
1983, 1h 25m, França

de Robert Bresson

Justificativa

Os planos estáticos e recortados, que revelam por entrelinhas.