CADERNOS DE ARTISTA
Trivakra
2025, 10min, RJ
Trivakra
Um corpo assinalado enquanto desviante esqueleticamente precisa escapar das amarras materiais de um colete ortopédico que opera à serviço da coerção postural. As memórias de uma criança marcadas pela normatividade de gênero são revitalizadas através de ritos de hormonização coletiva. As tecnologias de correção são confrontadas pela afirmação dos desvios aberrantes materializada na produção de glitchs. A identidade é remodelada dispositivo de transmutação molecular em composição com a máquina. Softwares de rastreio de movimento são bagunçados quando postos em contato com membranas não passíveis de serem reconhecidas enquanto humanas. Qual a porção mínima de pele para um rosto ser um rosto? Qual o fragmento mínimo de um órgão para ser lido enquanto feminino ou masculino?
Ficha técnica
Direção: Sofia Angst
Roteiro: Sofia Angst
Produção: Excesso Filmes
Produção Executiva: Sofia Angst
Direção de Fotografia: Sofia Angst
Direção de Arte: Sofia Angst
Som: FEMMONIA, Hélène Vogelsinger e Ryoji Ikeda
Montagem / Edição: Sofia Angst
Elenco: Ártemis Rezende, Rachell Rosa e Sofia Angst
Distribuição: A Gota Preta Filmes
Festivais, Mostras e Prêmios
55th International Film Festival Rotterdam 2026
BIOGRAFIA DE ARTISTA
Sofia Angst é videoartista e montadora audiovisual transfeminina de Campos dos Goytacazes (Rio de Janeiro – Brasil), Sofia Angst navega pelos territórios da videoarte e da arte digital utilizando webcams e microscópios digitais. Ao investigar tecnologias de visualização médica do corpo, ela propõe uma videografia das vísceras e dos órgãos internos, costurada à dimensão cibernética da imagem. Graduanda em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense (UFF), seu curta-metragem Trivakra (2025) foi selecionado para a 55ª edição do Festival Internacional de Cinema de Roterdã (IFFR), integra o catálogo da Collectif Jeune Cinéma e foi exibido em circuitos alternativos de arte experimental em cidades como Paris, Londres, Berlim e Nova York.
FILMOGRAFIA
Declaração da Realizadora Sofia Angst
Anunciada a morte de todos os alquimistas da vanguarda estruturalista da imagem, o trabalho de desfiguração arqueológica dos arquivos visuais em direção ao presente estilhaçado pertence ao maximalismo digital das dissidências que remontam suas memórias por meio da coreografia epiléptica responsável por queimar a retina e conjurar a nova carne.
O corpo trans e a imagem transgenerificada são cúmplices da mutação planetária de uma nova forma de costurar o real. Softwares de rastreio de movimento e reconhecimento corpo-facial são bagunçados dentro de sua estrutura algorítmica alimentado por uma base gramatical colonizada sobre quais são concebidos os signos padrões de uma humanidade corporificada. O glitch é uma pistola audiovisual assim como foi o flicker, como profetizado por Paul Sharits: a retina e a consciência normativa do espectador continuam sendo os teus alvos.
Pela dissolução da normatividade psíquica, estética e fisiológica, Trivakra nasce como experimento rumo a uma videografia das vísceras.
NOTAS DE PROCESSO
“É o cinema ao sol, Sunerama.”
New York Filmmakers’s Cooperative, número 6 (publicado em 1975). Frase dita sobre uma exibição do “The Flicker”, de Tony Conrad.
O sol como cinema zero; dispositivo de impressão e registro de marcas em superfícies; imagens imagos; primeiro dispositivo de flicker; Faz queimar a retina; as pálpebras são o primeiro ecrã; e a primeira ilha de edição;
Primeira alucinógeno orgânico; choque fisiopsíquico originário;
Assista The Flicker, de Tony Conrad.
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
Em entrevista concedida em 2025, por ocasião da exibição de Trivakra no Metrô – Festival Universitário Brasileiro, em Curitiba, Sofia Angst amplia a discussão acerca do cinema trans experimental — um modo de fazer cinematográfico cujo processo de experimentação vincula, indissociavelmente, a linguagem fílmica e o gênero enquanto constructo social — ao articular a transgeneridade como uma “quebra da continuidade de um tempo onde as informações são previamente definidas e cristalizadas”.
Para a realizadora de Trivakra (2025), o cinema experimental em conjunto com a transgeneridade “operam nessas condições de visibilidade para novas configurações de mundo, de vida, de arte”. Em sua mais recente realização, Sofia investiga a construção de uma “pele cibernética”, explorando a dimensão tátil da imagem digital por meio de microscópios e do uso de datamosh. Esta operação metodológica produz um efeito de estreitamento na relação corporal do espectador com a imagem, elaborado por Laura U. Marks como “visualidade háptica”: o ato de “tocar com os olhos” e sentir com/no corpo.
Esta e outras escolhas de linguagem materializam uma produção de saber que transpõem o limiar estético e comunicam uma experiência de trânsito espiritual e fronteiriço acerca da habitação do corpo humano material, flertando com os desdobramentos sobre o que é “ser/ter um corpo” e experiências de “abstração do corpo”, questões que frequentemente reverberam nas experiências gênero desviantes. _ Trecho adaptado da dissertação de mestrado em andamento, que investiga os processos de criação em experimentação a partir das corporalidades no cinema trans contemporâneo, tomando como um de seus eixos dialógicos a obra de Sofia Angst. Anthony dos Santos Silva é mestrando em Cinema e Artes do Vídeo (UNESPAR), vinculado à Linha 2 – Processos de Criação e orientado pela Profª Drª Camila Macedo Ferreira Mikos.
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Trecho adaptado da dissertação de mestrado em andamento, que investiga os processos de criação em experimentação a partir das corporalidades no cinema trans contemporâneo, tomando como um de seus eixos dialógicos a obra de Sofia Angst. Anthony dos Santos Silva é mestrando em Cinema e Artes do Vídeo (UNESPAR), vinculado à Linha 2 – Processos de Criação e orientado pela Profª Drª Camila Macedo Ferreira Mikos.
Crítica do Filme – Los Experimentos Cine
Trivakra (Brasil, 2025) y Statues Also Die? (Brasil-Portugal-Hungría, 2026) fueron parte de la sección de cortos y mediometrajes del Festival de Rotterdam, en estreno la última. La primera es la ópera prima de la artista trans Sofi a Angst y se presentó por primera vez en un festival estudiantil en Brasil. Thais Fernandes, la directora de Statues Also Die?, tiene dos largometrajes en su fi lmografía, el segundo en codirección, e hizo este corto en el máster Erasmus Mundus Doc Nomads de tres universidades de Europa.
El título de Trivakra viene del Bhagavata Purana del hinduismo. Es el nombre de un personaje con tres anomalías, en el cuello, la cintura y las rodillas. Se trata de una fi gura mitológica a la que Sofi a Angst recurre para tratar el motivo de la confrontación de la persona trans con el cuerpo cuya identidad de género asignada al nacer rechaza que hemos visto en otra pieza comentada en Los Experimentos, Archivos lumínicos y otras sensibilidades (México, 2021), a cuya directora, Nuria González Pimentel, también entrevistamos en el blog.
En este caso se añaden otras razones, médicas, de rechazo del cuerpo por anomalía ósea. Es un desvío de la conformación normal que la medicina intenta corregir mediante el uso de aparatos ortopédicos como los corsés. La analogía con el Trivakra mítico se halla, así, en la forma física, el género y también en la imagen, un VHS de la artista como niño, grabado por su abuelo.
Sofía Angst hizo la pieza con intervenciones experimentales de ese video, y otras a grabaciones de performances en baja resolución, hechas con una webcam, y las registradas con un microscopio digital. Plantea así una analogía entre la manipulación del cuerpo electrónico de las imágenes, y las intervenciones del tratamiento hormonal y ortopédico en el cuerpo físico. Irónicamente, añade a estos recursos un programa de identifi cación de imágenes que arroja probabilidades de que lo que vemos en mutación sea un rostro, un cuerpo humano, o acaso un animal o un objeto, como una botella.
La distorsión y el glitch producen en la imagen una transición que va también de un género fílmico a otro ‒del video doméstico al experimental‒. El registro privado para el recuerdo se transmuta, además, en una imagen ciberfeminista potencialmente expansible infi nitamente en una circulación por el ciberespacio. Es como un big bang del cuerpo audiovisual que refi ere para renovarlos a otros mitos, como el Dog Star Man (1963) de Stan Brakhage o el niño de las estrellas de Stanley Kubrick en 2001, odisea del espacio (1968).
Esto dota a la pieza de una espectacularidad que también tensiona la intimidad originaria del video familiar con el que la artista trabaja. Trivakra se apoya en eso, y en la música electrónica con distorsión y ruido que acompañan las imágenes, para captar la atención del espectador o espectadora sensorialmente, de un modo transhumano que se confronta con la identifi cación sentimental del melodrama. Es otro mérito, al que podría añadirse el rechazo del romanticismo que inspira la poesía mítica de Brakhage en el fi lm citado.
Trivakra, sin embargo, no deja de referenciar la cuestión identitaria al trauma. Es un lugar común que, junto con lo trans y ciber, operan secretamente en la pieza de un modo contradictorio análogo a la ortopedia. Se conjugan para darle una posición normalizada en el contexto del arte contemporáneo.
Comentários e Reportagens
O lampejo de uma memória de infância, seu corpo infantil, o início de sua transformação molecular. A artista audiovisual Sofia Angst cria um autorretrato experimental fascinante através de manipulações de imagem em tempo real, utilizando webcams e microscópios digitais, rompendo as fronteiras da identidade. Uma navegação rítmica entre glitches corporais e audiovisuais, entre rituais de hormonização que geram glitch no software e decompõem figuras e padronizações. Acesse a íntegra,
“Foram utilizadas três músicas minhas na construção do Trivakra: Trítono: ‘’o intervalo do diabo’’ foi concebido em parceria com uma pessoa que não mais participa da minha vida. é quase que completamente um experimento de paredes de noise em um lado, e sampling pornográfico do outro; Falha Sistêmica: também pensado a partir de colagem e design de som; Refinaria: a música que mais participa do filme. As três faixas foram criadas quando eu tinha 16 para 17 anos, adorava fortemente Sophie e Death Grips (no entanto que sampleava alguns de seus trabalhos). Também tinha, nessa época, muito apreço por uptempo (batidas extremamente rápidas). O que caracteriza meu trabalho sonoro desde então é um apelo ao estado interdependente entre sons industriais e sons orgânicos. Como seria possível industrializar o som de um pássaro cantando? Ou, como seria possível elaborar ‘’organicamente’’ sons de explosões em pontes e acidentes de carros.
Acredito que ao redor de Trivakra meus sons caoticamente organizados possuam justamente essa carga de glitch, ruído metálico, grito expurgado escutado em contraste com a base de som geral, e ainda melhor valorado nos últimos 5 segundos do filme.”
OBRA CONVIDADA
A Trans With a Movie Camera
2018, 13min
de Frances Arpaia
Justificativa
Dissecando a estrutura gramatical do título original da obra-prima de Dziga Vertov chegamos a uma redução agênera da pessoa que está responsável pela câmera. “Chelovek s kinoapparatom”
Chelovek (Человек) é gênero não-determinante. A pessoa com uma câmera se torna o masculino universal nos jogos tradutórios das línguas ocidentais que precisam afirmar o regime político patriarcal em seu pacto com a imagem.
Frances ignora as etimologias por trás dos caminhos vertovianos e põe fogo nesse pacto.
Inaugura o que já existia sem nome: a rebelião do corpo começa pela imagem. Explodir a semântica imagética é romper com as determinações visuais de si e as representações de subalternidade.
O autoarquivamento como prática contrassexual de destruição e comunhão.
Disforia. Comunhão. Reminiscência. Asseveração.
O som da película rodando, a música da banda punk hardcore transfeminista, as vozes que entoam os sentidos de revoluções que me fazem sentir amor por todas as que vieram antes e sentir cumplicidade em tons de revolta pelas que ainda estão aqui; e por que não a partilha do espanto para que as que virão?
Disforia. Comunhão. Reminiscência. Asseveração.
A ruptura é o presente eterno para a posteridade.
A abstração toca o sensível e me enche de alegria. Eu me torno imagem, ser sem capturada por ela.
We’re from the Future.
We’re are fucking future girls like outside society’s shit.
Sinopse
Um cine-ensaio não narrativo que explora, de forma colaborativa, as potencialidades da representação transfeminina no cinema.
OBRA DE REFERÊNCIA
Flo Rounds a Corner (1999)
1999, 6 min
de Ken and Flo Jacobs
Justificativa
“Um vulcão em erupção está próximo.
O que levou Jean-Luc Godard a radicalmente mudar seu pensamento sobre Orfeu?
O que o levou a concordar com a afirmação de que o Cinema autoriza Orfeu a se olhar para trás sem matar Eurídice décadas atrás e, perto do teu fim, admitir que estava errado e que “”Orfeu deve pagar””?
Ken e Flo fazem poesia com o eterno e adentram na dimensão órfica da imagem; Flo vira a esquina, mas seus movimentos ficam presos entre os frames e seus gestos nunca se completam; Flo é simultaneamente Orfeu e Eurídice dançando no abismal molecular do onírico e do vulcânico. A imagem é filha dos Sonhos e das Chamas. Fluxo inesgotável!
Escreve Mark McElhatten:
“”O elenco está em fluxo — o animado e o inanimado dividem o protagonismo com essa dupla dinâmica: Push and Pull. Se a matéria possui consciência e renunciou ao movimento, como sugere Henri Bergson, a fim de conservar energia, então aqui temos uma apostasia dramática. (…) Se essa dança não fosse tão meticulosa, tão lenta, tão molecular, ela descreveria uma calamidade. Mas, na verdade, isso acontece todo dia, a cada momento, num piscar de olhos. Inclinações com afinação perfeita. A epônima Flo move-se inclinada e encantada por uma rua em Taormina, na Itália — tão casual, transcendental e ‘no tempo certo’ quanto a Chegada do Trem à Estação de La Ciotat, que dobrou a esquina de um outro século”””
Transgender
2019, 3 min
de Sailor DiNucci-Radley
Justificativa
“Um corpo. Uma webcam. Entre eles, alguns gestos, algumas cores e alguns pixels. Performance mínima.
Exercício de percepção e ritual de transfiguração.”
Skin Matrix
1984, 17min
de Ed Emshwiller
Justificativa
Cinema nasce e morre Pele. Se as palavras analógicas remetem aos poros da pele, em suas aproximações “película” (pele), “filme” (membrana fina), na transposição pro video e pro digital faz emergir um imperativo da visão que se distancia da tatilidade dos elementos que constituem a imagem. Se o digital significa “dedos” ou “toque” e o video é “eu vejo”, como quebrar a estrutura fechada dos códigos e conseguir acessar as vísceras do binário? Emshwiller nos lembra que as texturas de outra era também são possíveis no mundo matemático das imagens e suas bases são passíveis de serem tremidas. Obra fundante rumo a uma pele cibernética.
