CADERNOS DE ARTISTA

Vasta Natureza de Minha Mãe
2025, 79min, GO

Vasta Natureza de Minha Mãe

Mãe e filho descobrem juntos como filmar a vida dentro de casa. A trajetória de Inez é percorrida em diferentes tempos, enquanto Aristótelis registra o cotidiano, reinventando e capturando a natureza de sua mãe. A câmera se torna um elo entre o tempo e espaço. Permitindo aos dois a possibilidade de continuar sonhando.
Ficha técnica

Direção: Aristótelis tothi e Inez dos Santos
Roteiro: Aristótelis tothi, Iris de Oliveira e Inez dos Santos
Produção: Aristótelis tothi e Larry Machado
Produção Executiva: Cecília Brito
Direção de Fotografia: Aristótelis tothi
Som: Aristótelis tothi
Montagem / Edição: Iris de Oliveira
Elenco: Inez dos Santos
Edição e mixagem som: Guile Martins
Música e trilha sonora original: Emanuel Mastrella
Colorização e finalização: Larry Machado
Figurino: Milleide Lopes
Maquiagem: Marcela Elói
Cabelo: Bárbara Vieira
Acessórios: Oyewá – Suzany Newbartth
Câmera adicional: Inez dos Santos e Larry Machado
Som direto adicional: Rodrigo Costa
Obra Cartaz: Tio Designer: Beatriz Belo

Festivais, Mostras e Prêmios

XX Panorama Internacional Coisa de Cinema, Competitiva Nacional, Salvador/BA – abril/2025
Mostra MIRA, São Luís/MA, maio de 2025
X Cachoeira Doc, Cachoeira/BA, junho de 2025
58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, 2025
FestCine Itaúna, Caruaru/ PE, julho de 2025
VII Curta Lages , Lages/SC, Agosto de 2025 ( prêmio de melhor longa nacional)
VII Mostra de cinema Negro Adélia Sampaio, Brasilia/DF, 2025( prêmio de melhor longa-metragem)
ForumDoc BH – Belo Horizonte/MG, novembro 2025

BIOGRAFIA DO ARTISTA

Aristótelis tothi
Homem negro, nascido em 1990 no Conjunto Cruzeiro do sul, Aparecida de Goiânia, Goiás. Realizador audiovisual, produtor, técnico cinematográfico, cine-educador e colagista. Formado em Audiovisual pela Universidade Estadual de Goiás e pós-graduando em Gestão Cultural. Desde 2012 atuando em projetos de curtas e longas-metragens, séries de tv e videoclipes.
Sócio-produtor na produtora Dafuq Filmes e co-criador do selo afirmativo Filmes de Preto.
Associado a APAN – Associação de Profissionais do Audiovisual Negro.
Pesquisa e realização de cinema na perspectiva da memória e suas fabulações, sobretudo no universo doméstico e familiar.

 

FILMOGRAFIA

A câmera de João |curta-metragem – ficção | 21min – 2017

Frescor Marine |curta-metragem – Doc | 19min – 2019

Búfala |curta-metragem – experimental | 09min – 2021

Tião Personal Dancer |curta-metragem – ficção | 23’30” – 2026

BIOGRAFIA DA ARTISTA

Inez dos Santos
Negra, nordestina, do interior da Bahia, cozinheira, artesã, realizadora audiovisual e atriz.
Atua como elenco de apoio em curtas-metragens e campanhas publicitária; performer no tríptico em vídeoarte “Memória do movimento de um corpo ancestral”, 2020, performance e interpretação no curta-metragem “Búfala”, 2021 – premiado como melhor filme experimental no Festival Internacional de cinema ambiental , FICA 2021 e Melhor filme Experimental Festival de cinema de Triunfo, 2024 -.
Co-diretora e atriz do longa “Vasta Ntureza de minha Mãe”, 2025

 

VASTA É A NATUREZA DO AFETO: O CINEMA DE ARISTÓTELIS – JORDANA BARBOSA

Quem assiste Vasta Natureza de Minha Mãe, tem a certeza que Aristótelis Tothi faz cinema por necessidade. A necessidade de criar um mundo que não existe, a necessidade de mostrar uma família que não aparece em nenhuma tela, a necessidade de ser protagonista da própria vida, ao mesmo tempo que é coadjuvante da mãe. Seu cinema, assim como ele próprio, é uma invenção que pulsa vida, uma performance da escuta dos ritmos e a devoção de quem respeita o tempo das coisas que realmente importam.
A mãe, estrela maior deste longa, Inez dos Santos, também cria: mundos, histórias, filhos, imagens, movimentos, sons, arte e destinos. E quando dois mundos, o do filho e o da mãe, se chocam, mas não como um choque onde as coisas se quebram, se parece mais com um encontro intenso onde mundos intervém um no outro criando dimensões de mundos possíveis, de mundos que não foram pensados antes.
Neste mundo criado a partir da colisão, o afeto é um dos fundamentos, mas também é ferramenta estética e narrativa. A câmera não é apenas uma ferramenta de captura, Tothi, como é chamado pelos amigos, a transforma em dispositivo de cuidado, de escuta e de presença. É possível perceber esse esforço de criação em curtas realizados por ele, como A câmara de João (2017), Frescor Marine (2019) e Búfala (2021), nos dois últimos a intimidade do cotidiano familiar já era o pano de fundo e a linha narrativa que costurava as histórias íntimas e sensíveis. Porém, esse gesto alcança seu ápice em Vasta Natureza de Minha Mãe, filme que não apenas tem sua mãe, Inez dos Santos, como protagonista, mas a reconhece como co-autora, como alguém que, junto dele, pensa, sente e compõe o cinema. É com ela — e nunca apenas sobre ela — que o filme é construído, é a voz dela que delimita o tempo em que se para e finaliza.
Mais do que uma relação familiar registrada, o que se constrói é um território de criação compartilhado, onde mãe e filho se observam e se dirigem mutuamente. Ao longo de onze anos de filmagens silenciosas, domésticas, persistentes, o que se desenha não é apenas um retrato,
mas uma coreografia do cotidiano íntimo: uma dança entre o cuidado e a fabulação, entre a memória e o agora, entre o gesto ordinário e o extraordinário da presença negra e feminina em cena. É uma viagem nos tempos que compõem a vida de qualquer um, mas encarnado por Inez e por Aristótelis que apresentam, no corpo, na voz e na vida, as transformações que o tempo vai deixando à medida que ele passa.
O cinema de Aristótelis, como é chamado por sua mãe, recusa as fórmulas prontas. Em vez de buscar legitimidade nas convenções formais ou acadêmicas, ele propõe um fazer que nasce do corpo, da casa, da cozinha, da rua, da planta que precisa de poda antes da chuva, da estação do ano que atravessa os humores de quem filma e de quem é filmado. É um cinema que se permite ser intuitivo, sensível e um misto que causa a certeza de que sua força está no que escapa da norma. Documentário, ficção, performance, vídeo-instalação: não importa o nome se o cinema pulsa vida, transporta no tempo e transborda afeto.
A construção dessa linguagem própria se constrói a partir da experiência negra periférica que molda seu olhar, o olhar de uma família que habita o Cruzeiro do Sul, periferia de Aparecida de Goiânia, há quase 50 anos. É desse chão concreto e sólido – entre deslocamentos, call centers, universidades e set de filmagem – que Aristótelis Tothi forja sua ética e estética. Uma ética que desestabiliza a lógica autoral centrada no indivíduo e propõe outra configuração: mais horizontal, mais próxima, mais comunitária. No coração dessa proposta, está o conhecimento que nasce e habita as cozinhas, as escutas, a repetição dos gestos, o cuidado com o outro, a medicina dos quintais.
Ao incluir a mãe como co-diretora, o produtor reconfigura o lugar da autoria, uma questão de nomear quem tem direito, afinal, foi ela quem, lá atrás, decidiu registrar seus aniversários com uma câmera contratada; foi ela quem sempre quis uma câmera para si; foi ela quem cozinhou para as equipes, quem observou os sets, quem devolveu críticas sinceras aos atores e diretores. Foi ela quem, sem saber, mas com muita ousadia, já dirigia. O cinema aqui não é uma abstração, é extensão da vida. E a vida, para eles, sempre foi feita a muitas mãos.
Vasta Natureza de Minha Mãe é, portanto, o nome de um filme e de uma maneira de existir no cinema. Um manifesto íntimo e político, que reconhece na memória e no afeto a força de um gesto estético radical. Porque filmar nunca foi sobre contar histórias distantes, mas sobre fazer da própria história um campo fértil de invenção. Um cinema de invenção de mundos, de
fabulações e invenções concretas, mas também de permanência, de beleza, de sonhos e principalmente de afeto.

ABORDAGEM VISUAL, RECURSOS FÍLMICOS E NARRATIVOS

Narrativamente, o filme se estrutura de maneira não linear, mas se propondo há uma construção com arcos narrativos, utilizando as cenas gravadas em suporte digital na residência e externas ao longo dos 12 anos de registros, áudios de entrevistas com Inez, – personagem principal do filme – e reuniões de direção/montagem entre Aristótelis – autor/ diretor e Íris -, há também imagens de arquivo em VHS, com o registro do aniversário de 50 anos da protagonista e fotografias analogicas em diferentes suportes e formatos, produção autoral de músicas incidentais instrumentais e com bases sampleadas. Essa proposta de composição de imagens em diferentes formatos e suportes, reserva atenção ao que chamamos ao longo do processo de “sintaxe narrativa”. Neste sentido buscamos organizar os eventos ao longo da trama, de modo que não pareçam aleatórios, e que se justificam pelo propósito que demanda ao filme, assim que não se prenda a blocos narrativos mais longos que o necessário, o que também nos possibilita transitar entre tempos e espaços diferentes da vida da personagem, tentando apresentá-la de maneira menos didática e mais subjetiva, conduzindo o espectador a reconhecer Inez ao longo dos eventos no filme. A intenção é que nossa personagem seja percorrida como uma paisagem desconhecida que se manifesta à medida que avançamos nessa trama.
Ao propor uma estrutura narrativa não muito convencional, também, por se tratar de um documentário de personagem, e que se sustenta praticamente todo tempo em sua protagonista, há intenção de construir arcos narrativos, considerando cenas que foram gravadas com ações direcionadas, de maneira que se module esses acessos a vida da personagem, considerando a narrativa, com um nível de conflito moderado, ao pulverizar informações pessoais da personagem. O filme pode alcançar nuances que se inspiram em movimentos de videoarte, mais caracterizados por performances em danças, acionando um deslocamento fabulativo de Inez, se fundindo com as cenas do cotidiano doméstico provocando a desejada manifestação artística da personagem ainda na configuração do ambiente doméstico, considerando que o filme em grande parte se passa dentro da residência da atriz. A trilha sonora tem um papel fundamental em conduzir estas sensações ao longo da trama, na intenção de demarcar, principalmente, essas ações performáticas. As composições musicais exclusivas para o filme, foram feitas por Emanuel Mastrella que trouxe uma proposta de textura dos antigos tocadores de vinil, aplicadas na finalização das faixas.

Apresentando brevemente sobre propostas estéticas a cerca de pós-produção de imagem do filme, a própria textura característica das imagens em VHS se torna nossa principal referência, bem como das fotografias analógicas, que podem, naturalmente indicar que os registros são de outro tempo, isso corrobora para que a narrativa atravesse por diferentes períodos da vida de Inez e também acentue a relação nostálgica na vida da personagem. Há uma reflexão sobre as características do material gravado pelo autor, por se tratar de imagens captadas por uma câmera filmadora semi-profissional e celular, neste sentido a proposta de finalização de imagem pretende assumir ao longo de todo filme imagens sem hiper nitidez, e em alguns movimentos performáticos, trazer texturas mais etéreas, como sobreposições de imagens, acompanhando, esse contraste que a própria narrativa pretende apresentar, porém, estes tratamentos de imagem, não pretendem descaracterizá-las como produzidas em suporte digital.

PLAYLIST DO FILME
MEMÓRIA DO MOVIMENTO DE UM CORPO ANCESTRAL (2020)

interpretação e coreografia: Inez dos santos
direção, câmera e montagem: Tothi

IMAGENS
OBRA CONVIDADA

ACERVO ZUMVI – O Levante da Memória

2020, 36min

de Iris de Oliveira

Justificativa

Iris de Oliveira é realizadora e montadora de filmes. Ela também assina roteiro e montagem de “Vasta Natureza de minha mãe”. Zumvi é seu trabalho de pesquisa/escavação, realização e é uma óde a memória do povo preto brasileiro, trazendo como fio condutor o fotográfo Lázaro Roberto e sua produção fotográfica de anos para o centro da narrativa e apresenta sua trajetória. O filme se estutura em fundamentos clássicos do cinema documentário, percorrendo diferentes tempos e lugares, coleta entrevistas e se relaciona com a fotografia e as pessoas de maneira genuína. Através da montagem, ele transpõe o passado e presente, recostitui e reivindica a memória, e parece capturar do espectador aos detalhes das fotografias como se alguns cortes fossem o próprio obturador da câmera fotográfica.

Sinopse

O documentário trata da história do ZUMVI Arquivo Fotográfico, sua luta por preservação e a trajetória profissional do fotógrafo Lázaro Roberto, o “Lente Negra”, um dos pioneiros da fotografia documental na Bahia. O acervo contém mais de 30 mil fotogramas – um precioso e pouco conhecido conjunto de registros de importantes e definidores momentos da história da luta por justiça social da população negra na Bahia reunidos desde a década de 70.

OBRA DE REFERÊNCIA

 Diários de Perlov – coletânea composta por seis filmes.
1983, 330min

de Clementina de Jesus, Tia Doca e Geraldo Filme

Justificativa

“Quando você filma um diário, o filme substitui a vida. É uma grande experiência. E enquanto você está na mesa de edição, também é muito prazeroso, porque você tem controle sobre sua vida – suas crises, suas dores. Você pode recriar a vida ou fragmentá-la. Sobretudo, você pode criar harmonia. Quando você retorna à vida real, ela é muito menos harmoniosa, dura muito mais do que seis horas.” Nascido no Brasil, David Perlov tornou-se um dos mais importantes diretores de cinema de Israel. Neste documentário, ele filma durante dez anos seu cotidiano, sua família, seus amigos e viagens que fez, especialmente para a França e para o Brasil

Filmar o que não se vê
Livro

de Patricio Guzmán

Justificativa

Na obra Filmar o que não se vê, o cineasta chileno Patricio Guzmán compartilha suas experiências na produção de documentários, apoiando-se no cinema de autor e discorrendo sobre os parâmetros que orientaram seus trabalhos, tais como os conceitos de ponto de vista (opinião do diretor), distanciamento (viabilizado a partir do estabelecimento de territórios de criação e pesquisa), subjetividade (reafirmando a parcialidade das produções audiovisuais) e escrita de roteiros (técnicas de criação). Ainda que em sua formulação Guzmán parta de sua experiência documental, os conceitos que trabalha dizem respeito à produção audiovisual de forma ampla, não se limitando aos documentários, e servem de base a qualquer experiência criativa na área de cinema e vídeo.