CADERNOS DE ARTISTA
Morfeu e Caronte
2026, 13min, RJ
26/06 | 19h
Cinemateca Capitólio
Morfeu e Caronte
Um trisal de idosos gays lida com a proximidade da morte — Zito, que foi diagnosticado com demência, e seus dois companheiros, Morfeu e Caronte. À medida que os sintomas se intensificam, as fronteiras entre sonho e realidade se tornam difusas: Zito extravasa seus últimos desejos, revisita memórias evanescentes e recebe os cuidados de seus amores como se sua vida fosse um extravagante número musical embalado por sambas de outrora.
Ficha técnica
Direção: Luiz Ulian e Jocimar Dias Jr.
Roteiro: Luiz Ulian, Jocimar Dias Jr.
Produção: Hadija Chalupe, Jamile Chalupe, Luiz Ulian, Jocimar Dias Jr.
Produção Executiva: Hadija Chalupe, Luiz Ulian
Direção de Fotografia: Vitor Novaes
Direção de Arte: Dalila Aguiar
Som: Guilherme Nogueira
Montagem / Edição: Peterkino
Elenco: Bayard Tonelli, Marco Canonici, Tony Reis,
Ninfos: Edgar Bernardo, João Freire, Kaleb Lima, Matheus Rodelli, Peter, Zé Vitor Braga
Distribuição: A Gota Preta Filmes
BIOGRAFIA DE ARTISTA
Jocimar Dias Jr. (ele/dele) é trabalhador do audiovisual, atuando principalmente nas áreas de direção cinematográfica, assistência de direção, pesquisa de imagens de arquivo e docência. Doutor em Cinema e Audiovisual pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (PPGCine-UFF). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF). Bacharel em Cinema e Audiovisual pela mesma instituição (UFF, 2014), com passagem pela Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC), em Lisboa (2011-2012). Foi um dos editores da Revista Moventes e ofereceu cursos livres através da plataforma Ritornelo Audiovisual. Como realizador, dirigiu “ENSAIO SOBRE MINHA MÃE” (2014), curta-metragem docudrama musical exibido em 24 festivais nacionais e internacionais, angariando premiações nos festivais: 26º Kinoforum (SP), 7º Kino-Olho (SP), 9º CineMúsica (RJ), 5º Festival Universitário de Alagoas (AL), II MOV (PE) e 13º MIFEC (Porto, Portugal). Dirigiu “VOLLÚPYA” (2024, em co-direção com Éri Sarmet), um híbrido entre ficção científica e documentário de imagens de arquivo sobre a famosa boate “GLS” de Niterói, que teve sua estreia mundial no 48º Frameline – Festival Internacional de Cinema LGBTQ+ de San Francisco (Califórnia, EUA), e desde então já participou de pelo menos 45 festivais, obtendo diversas premiações, com destaque para: Melhor Curta (Júri da Crítica) no 31º Festival de Vitória (ES); Menção Honrosa de Melhor Curta (Júri Oficial) no 34º Oslo/Fusion International Film Festival (Noruega); Menção Honrosa de Melhor Documentário LGBTQIA+ (Júri do Prêmio Félix) no 26º Festival do Rio; Melhor Curta (Voto Popular) no 26º FestCurtasBH; Melhor Montagem no 26º Festival Kinoarte de Cinema (PR); Prêmio Canal Brasil de Curta no 32º Festival Mix Brasil (SP); Finalista na categoria Melhor Curta Documentário no 24º Prêmio Grande Otelo de Cinema Brasileiro. Seu novo curta, “MORFEU E CARONTE” (2026, em co-direção com Luiz Ulian), uma extravagância musical sobre um trisal de idosos gays lidando com a proximidade da morte, teve sua estreia mundial no 50º Frameline (Califórnia, EUA) e sua estreia nacional no 16º Cine Esquema Novo (RS).
FILMOGRAFIA
BIOGRAFIA DE ARTISTA
Luiz Ulian (ele/dele) – Realizador, pesquisador e professor queer brasileiro, sediado em São Paulo, Brasil. Doutor em Comunicação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), com pesquisa dedicada ao cinema queer brasileiro contemporâneo, e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde desenvolveu pesquisa sobre o gênero musical no cinema. Realizador estreante, dirigiu o curta-metragem de ficção SÉTIMO DIA (2016) e roteirizou e produziu o curta-metragem documental CARMEN MIRANDA, QUEM DIRIA, ACABOU EM SÃO PAULO (2024). Atua como professor e ministrante de aulas nas áreas de cinema e audiovisual, incluindo curso realizado para o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP), com foco em cinema LGBTQIAPN+, cinema musical e suas intersecções com estéticas queer. Possui artigos e capítulos de livros publicados, além de trabalhos apresentados em eventos acadêmicos nacionais e internacionais. Seus interesses de pesquisa concentram-se em estéticas do cinema e do audiovisual, corpo e performance, gênero e sexualidade, poéticas queer nas imagens e nos sons e cinema de gênero, com ênfase no musical. Tem interesse nas áreas de roteiro, direção e crítica cinematográfica. É roteirista e crítico no Projeto A Sala, projeto audiovisual de divulgação e crítica cinematográfica, e foi roteirista e apresentador do Gênero Sem Ideologia (2021–2024), dedicado a debates sobre gênero e sexualidade em pesquisas acadêmicas. É diretor e roteirista do curta-metragem MORFEU E CARONTE (2026), em co-direção com Jocimar Dias Jr.
SOBRE A OBRA
Morfeu e Caronte nasce do encontro entre duas bichas artistas/cineastas/pesquisadoras completamente fascinadas pelos musicais no cinema e suas potencialidades queer. O curta-metragem encapsula as principais inquietações que moveram as pesquisas de Luiz Ulian e Jocimar Dias Jr. em torno desse gênero cinematográfico durante toda a última década, seja em seus escritos acadêmicos, seja em obras cinematográficas pregressas.
E se as extravagâncias musicais estadunidenses dos anos 1930, como aquelas dirigidas por Busby Berkeley com suas coreografias caleidoscópicas, celebrassem não o casal heterossexual monogâmico, mas a pluralidade de amores e corpos dissidentes? E se as chanchadas carnavalescas brasileiras fossem ainda mais escrachadas na abordagem de questões de gênero e sexualidade que os filmes dirigidos por um homossexual enrustido como Watson Macedo nos anos 1950? Numa reapropriação queer, homoerótica e não-monogâmica das estratégias de encenação de musicais revisionistas e experimentais como Dinheiro do Céu (Herbert Ross, 1981) ou Paciência Zero (John Greyson, 1993), explorarmos em Morfeu e Caronte a artificialidade da dublagem enquanto recurso estilístico expressivo dos descompassos entre sonho e realidade, entre vida e morte.
A ideia inicial de contar uma história de um casal de idosos gays, um deles acometido pelos sintomas da doença de Alzheimer, foi aos poucos se transformando na vontade de contar a trajetória de um trisal gay intergeracional irreverente e apaixonado, cujo amor multiplicado por três também se reflete em cuidado triplicado até o fim da vida de um deles. Amando e cuidando de Zito, temos a confluência de duas figuras mitológicas que regem as transições entre “corpo” e “alma” — Morfeu, que governa o mundo dos sonhos, e Caronte, o barqueiro responsável por conduzir as “almas” através das águas para o além-morte.
Enquanto os corpos de nossos três personagens dublam os fonogramas das canções pré-existentes em números musicais propositadamente “falhados” (se pensarmos nos termos de Amy Herzog), buscamos deslocar de maneira queer no tempo e no espaço as reverberações do número musical aquático “By a Waterfall” de Belezas em Revista (1933), sua versão brasileira “Sob uma Cascata” na voz de Francisco Alves naquele mesmo ano (e suas repetidas iterações no cinema brasileiro), a fim de estabelecermos pontes transviadas entre musical clássico e chanchada carnavalesca nas brechas escancaradas pela assincronia entre imagem e som.
TRECHOS DE ROTEIRO E SHOOTINGBOARD
OBRA CONVIDADA
Encontro entre Duas Rainhas (Meeting of Two Queens, Cecilia Barriga, 1991, 14min)
Justificativa
O gesto estético do fascinante curta-metragem de Cecília Barriga foi de profunda inspiração para nós. Nele, a artista chilena manipula trechos dos filmes mais marcantes estrelados pelas divas hollywoodianas Greta Garbo e Marlene Dietrich, remontando-os para criar entre eles conexões desejantes através dos olhares e gestos agora trocados entre essas duas figuras estelares. Há uma espectatorialidade lésbica/queer subjacente a essa nova organização das imagens, que cria significados dissidentes para essas imagens de arquivo empoeiradas. A questão aqui é menos afirmar a não-heterossexualidade das atrizes e de seus papéis (embora múltiplas afirmações tenham sido feitas sobre ambas), mas queerificar o arquivo de imagens heterossexuais e heterossexualizantes do cinema clássico através de um olhar espectatorial desviante. Numa releitura queer desses fragmentos de filmes através da montagem, desejos latentes nessas imagens finalmente extravasam. Tentamos fazer algo semelhante em relação aos musicais estadunidenses e às chanchadas em Morfeu e Caronte.
Sinopse
Neste filme que brinca com as imagens do cinema clássico, a artista visual chilena Cecilia Barriga escala Greta Garbo e Marlene Dietrich para os papéis de suas vidas — interpretando amantes uma da outra. A Rainha Cristina encontra a Imperatriz Escarlate; Anna Karenina e Vênus Loira transcendem a tragédia e se entregam uma à outra.
OBRAS DE REFERÊNCIA
Número musical “By a Waterfall”, de Belezas em Revista
(Footlight Parade, Lloyd Bacon, Busby Berkeley, 1933)
Justificativa
Os números musicais caleidoscópicos dirigidos por Busby Berkeley nos anos 1930 são a principal referência estética para os sonhos/devaneios musicais de nosso personagem, Zito. Destaque para a extravagância aquática do número “By a Waterfall”, do filme Belezas em Revista (1933), citado diretamente em nosso filme. O sucesso do filme e desta faixa levou Francisco Alves a gravar uma versão brasileira da canção naquele mesmo ano, “Sob uma cascata”.
Dinheiro do Céu, 1981
de Herbert Ross
Justificativa
A forma como o filme de Herbert Ross (baseado na telessérie de Dennis Potter) se utiliza da dublagem “falhada” de fonogramas pré-existentes para friccionar passado e presente nos corpos dos personagens foi a principal referência de artifício experimental de encenação dissonante para Morfeu e Caronte.
Paciência Zero, 1993
de John Greyson
Justificativa
Neste marco do New Queer Cinema, temos um exemplo de reapropriação queer dos números musicais aquáticos à la Busby Berkeley — John Greyson utiliza a ambientação da piscina e suas potencialidades de artifício e teatralidade para encenar o desejo de seu protagonista de que a história de sua vida não fosse mais deturpada, mas fosse relembrada pela afirmação da vida em detrimento do apagamento histórico de vivências LGBTQIA+.

